Textos Dalai Lama

A Compaixão e o Indivíduo

 

Por Tenzin Gyatso, o 14° Dalai Lama (*)

 

O propósito da vida

UMA GRANDE PERGUNTA fundamenta nossa existência, quer pensemos sobre isso conscientemente ou não: qual é o propósito da vida? Eu analisei essa questão e gostaria de compartilhar meus pensamentos, na esperança de que eles possam oferecer um benefício direto e prático aos leitores.

Acredito que o propósito da vida é sermos felizes. Desde o momento do nascimento, todo ser humano quer felicidade e não quer sofrimento. A condição social, a educação, a ideologia de cada um não muda isso. Do âmago de nosso ser, nós simplesmente desejamos contentamento. Eu não sei se o universo, com suas incontáveis ​​galáxias, estrelas e planetas, tem algum significado mais profundo ou não, mas ao menos nós, seres humanos que vivemos na Terra, temos a tarefa de construir uma vida feliz para nós mesmos. Portanto, é importante descobrirmos o que irá provocar um maior grau de felicidade.

 

Como alcançar a felicidade

Para começar, é possível dividir felicidade e sofrimento em duas categorias principais: mental e física. Desses dois, é a mente que exerce a maior influência na maioria de nós. A menos que estejamos gravemente doentes ou privados das necessidades básicas, a nossa condição física desempenha um papel secundário na vida. Se o corpo está satisfeito, nós praticamente o ignoramos. A mente, entretanto, registra cada evento, não importa quão pequeno ele seja. Portanto, devemos dedicar nossos maiores esforços para trazer a paz para a mente.

Através de minha própria experiência descobri que o maior grau de tranquilidade interior vem do desenvolvimento do amor e da compaixão.

Quanto mais nós nos importamos com a felicidade dos outros, maior é o nosso próprio sentimento de bem-estar. Se cultivarmos uma proximidade, uma sensação calorosa para com os outros, isso automaticamente deixará a mente tranquila. Isso ajuda a remover quaisquer medos ou inseguranças que possamos ter e nos dá a força para lidar com todos os obstáculos que encontrarmos. Essa é a fonte definitiva de sucesso na vida.

Enquanto vivemos nesse mundo, seguramente encontraremos problemas. Se, nessas ocasiões, perdemos a esperança e ficamos desanimados, diminuímos nossa capacidade de enfrentar as dificuldades. Se, por outro lado, lembrarmos que não somente nós, mas todas as pessoas passam por sofrimento, então essa perspectiva mais realista aumentará nossa determinação e capacidade de superar os problemas. Na verdade, com essa atitude, cada novo obstáculo pode ser enfrentado como mais uma oportunidade valiosa de melhorarmos a nossa mente!

Assim, podemos nos esforçar para que, gradualmente, nos tornemos mais compassivos, ou seja, poderemos desenvolver uma genuína consideração pelo sofrimento dos outros e uma vontade de os ajudar a remover sua dor. Como resultado, nossa própria serenidade e força interior irão aumentar.

 

A nossa necessidade de amor

Fundamentalmente, a razão pelo qual o amor e a compaixão nos trazem maior felicidade é, simplesmente, porque a nossa natureza os estima acima de tudo. A necessidade de amor está na própria base da existência humana. É o resultado de uma profunda interdependência que todos nós compartilhamos uns com os outros. Todavia, por mais capaz e hábil que um indivíduo possa ser, sozinho, ele ou ela não sobreviverá. Por mais vigoroso e independente que um indivíduo possa se sentir durante o período mais próspero de sua vida, quando se está doente, quando se é muito jovem ou muito velho, é preciso contar com o apoio dos outros.

A interdependência, certamente, é uma lei fundamental da natureza. Não somente as formas superiores de vida, mas também muitos dos menores insetos são seres sociais que, sem religião, direitos ou educação, sobrevivem através da cooperação mútua com base em um reconhecimento inato de sua interconexão. O nível mais sutil de fenômenos materiais também é regido pela interdependência. Todos os fenômenos do planeta em que habitamos, desde os oceanos, nuvens, florestas e as flores que nos cercam, surgem em dependência de padrões sutis de energia. Se não houver uma interação adequada, eles se dissolvem e desaparecem.

É pelo fato de nossa própria existência humana ser tão dependente da ajuda dos outros que a nossa necessidade de amor está no próprio fundamento de nossas vidas. Portanto, precisamos ter um verdadeiro senso de responsabilidade e uma preocupação sincera com o bem-estar dos outros.

Temos que levar em consideração o que nós, seres humanos, realmente somos. Nós não somos como os objetos feitos pelas máquinas. Se fôssemos apenas entidades mecânicas, então, as próprias máquinas poderiam aliviar todos os nossos sofrimentos e satisfazer as nossas necessidades.

No entanto, uma vez que não somos exclusivamente criaturas materiais, é um erro depositar todas as nossas esperanças de felicidade unicamente no desenvolvimento externo. Em vez disso, devemos considerar nossas origens e nossa natureza para descobrir o que queremos.

Deixando de lado a complexa questão da criação e evolução do nosso universo, podemos ao menos, concordar que cada um de nós é o fruto dos nossos próprios pais. Em geral, a nossa concepção ocorreu não apenas no contexto do desejo sexual, mas da decisão de nossos pais de ter um filho. Tais decisões são baseadas na responsabilidade e altruísmo – o compromisso compassivo dos pais de cuidar de seu filho até que ele seja capaz de cuidar de si mesmo. Assim, desde o momento da nossa concepção, o amor dos nossos pais está presente em nossa criação.

Além disso, somos completamente dependentes dos cuidados de nossas mães, desde as primeiras etapas do nosso crescimento. De acordo com alguns cientistas, o estado mental de uma mulher grávida, seja ele calmo ou agitado, exerce um efeito físico direto sobre o feto.

A expressão do amor também é muito importante no momento do nascimento. Visto que a primeira coisa que fazemos é sugar o leite do seio de nossas mães, nós naturalmente nos sentimos perto dela e ela deve sentir amor por nós para que possa nos alimentar adequadamente. Se ela sentir raiva ou ressentimento, seu leite pode não fluir livremente.

Depois, há o período importante do desenvolvimento do cérebro, do momento do nascimento até pelo menos três ou quatro anos, período em que o contato físico amoroso é o fator mais importante para o crescimento normal da criança. Se a criança não for cuidada, abraçada, afagada ou amada, seu desenvolvimento será prejudicado e seu cérebro não irá amadurecer adequadamente.

Uma vez que uma criança não consegue sobreviver sem o cuidado dos outros, o amor é a sua alimentação mais importante. Para a felicidade na infância, para a redução de muitos medos da criança e para o desenvolvimento saudável de sua autoconfiança, a criança depende diretamente do amor.

Hoje em dia, muitas crianças crescem em lares infelizes. Se elas não recebem muito afeto, quando atingem a vida adulta, elas raramente amarão seus pais e, não raro, acharão difícil amar os outros. Isso é muito triste.

Quando as crianças crescem e entram para a escola, sua necessidade de apoio deve ser cumprida por seus professores. Se um professor não apenas transmite a formação acadêmica, mas também assume a responsabilidade de preparar os alunos para a vida, seus alunos sentirão confiança e respeito, e o que foi ensinado deixará uma impressão indelével em suas mentes. Por outro lado, uma disciplina ministrada por um professor que não mostra a verdadeira preocupação com o bem-estar geral de seus alunos será considerado como temporário e não será mantido por muito tempo.

Da mesma forma, se alguém está doente e sendo tratado no hospital por um médico que evidencia um sentimento de calor humano, o paciente se sente à vontade e o desejo dos médicos de oferecer o melhor tratamento possível é por si só curativo, independente do grau de sua habilidade técnica. Por outro lado, se um médico não tem sentimento humano e exibe uma expressão não amigável, impaciência ou descaso, o paciente se sentirá ansioso, mesmo que o médico ou a médica seja altamente qualificada, mesmo que a doença tenha sido diagnosticada corretamente e a medicação prescrita tenha sido a mais adequada. Inevitavelmente, os sentimentos dos pacientes fazem a diferença para a qualidade e integridade de sua recuperação.

Mesmo quando nos envolvemos em uma conversa normal na vida cotidiana, se alguém fala com um sentimento humano que gostamos de ouvir, imediatamente respondemos de acordo, então, toda a conversa se torna interessante, não importando o tema da conversa. Por outro lado, se uma pessoa fala com frieza ou grosseria, nos sentimos pouco à vontade e desejamos por um fim rápido na interação. Desde o menor evento até o mais importante, o carinho e o respeito dos outros são vitais para a nossa felicidade.

Conheci recentemente um grupo de cientistas dos Estados Unidos e eles me disseram que a taxa de doentes mentais em seu país era muito alta, em torno de doze por cento da população. Tornou-se claro, durante nossa discussão, que a principal causa da depressão não era a falta das necessidades materiais, e sim a privação do afeto de outras pessoas.

Então, como você pode ver, de tudo o que escrevi até agora, uma coisa parece clara para mim: se estamos ou não conscientes disso, desde o dia em que nascemos, a necessidade de afeto humano está em nosso próprio sangue. Mesmo que o carinho venha de um animal ou alguém que normalmente consideramos um inimigo, tanto as crianças quanto os adultos, naturalmente o aceitaríamos.

Eu acredito que ninguém nasce livre da necessidade de amor. E isso demonstra que, ao contrário do que algumas escolas de pensamento modernas costumam defender, os seres humanos não podem ser definidos unicamente como seres físicos. Nenhum objeto material, embora seja belo e valioso, pode fazer com que nos sintamos amados, porque a nossa identidade mais profunda e nosso verdadeiro caráter residem na natureza subjetiva da mente.

 

Desenvolvendo a compaixão

Alguns dos meus amigos me disseram que, enquanto o amor e a compaixão são maravilhosos e bons, eles não são muito relevantes. Nosso mundo, dizem eles, não é um lugar onde tais crenças têm muita influência ou poder. Eles afirmam que a raiva e o ódio são parte da natureza humana e que a humanidade sempre será dominada por esses sentimentos. Eu não concordo.

Nós, seres humanos, existimos em nossa forma atual por cerca de cem mil anos. Acredito que, se durante esse tempo a mente humana tivesse sido controlada principalmente pela raiva e pelo ódio, a população global teria diminuído. Mas hoje, apesar de todas as nossas guerras, observamos que a população humana está maior do que nunca. Isso indica, claramente para mim, que o amor e a compaixão predominam no mundo. E é por isso que eventos desagradáveis viram notícias. As atividades humanitárias são tão parte da nossa vida diária que elas são tidas como normais e, portanto, largamente ignoradas.

Até aqui, discuti principalmente os benefícios mentais da compaixão, mas ela contribui também para uma boa saúde física. De acordo com minha experiência pessoal, a estabilidade mental e o bem-estar físico estão diretamente relacionados. Sem dúvida, raiva e agitação nos tornam mais suscetíveis às doenças. Por outro lado, se a mente está tranquila e ocupada com pensamentos positivos, o corpo não será presa fácil à doença.

Mas, é claro, também é verdade que todos nós temos um egocentrismo inato, que inibe o amor pelos outros. Assim, se desejarmos a verdadeira felicidade que só pode ser atingida por uma mente calma e desde que tal paz de espírito seja provocada unicamente por uma atitude compassiva, como podemos desenvolver isso? Obviamente, não é suficiente que nós simplesmente pensemos em quão bom é a compaixão! Precisamos fazer um esforço em conjunto para desenvolvê-la. Precisamos usar todos os eventos de nossa vida diária para transformar nossos pensamentos e comportamentos.

Em primeiro lugar, temos de ser claros sobre o que queremos dizer com compaixão. Muitas formas de um sentimento compassivo estão misturadas com o desejo e o apego. Por exemplo, o amor que os pais sentem por seu filho, muitas vezes está fortemente associado com as suas próprias necessidades emocionais, por isso, não é totalmente compassivo. Mais uma vez, no casamento, o amor entre marido e mulher – especialmente no início, quando cada parceiro pode ainda não conhecer completamente a personalidade do outro – é possível que seja mais apego do que amor genuíno. Nosso desejo pode ser tão forte que a pessoa a quem estamos apegados parece ser boa, quando na verdade ele ou ela é muito negativo ou negativa. Além disso, temos a tendência de aumentar pequenas qualidades positivas. Assim, quando a atitude de um dos parceiros muda, o outro parceiro fica muitas vezes decepcionado e sua atitude muda também. Essa é uma indicação de que o amor tem sido motivado mais por necessidade pessoal do que por genuíno cuidado com o outro indivíduo.

A verdadeira compaixão não é apenas uma resposta emocional, mas um compromisso firme baseado na razão. Portanto, uma atitude verdadeiramente compassiva para com os outros não muda, mesmo se eles se comportarem negativamente.

É claro que o desenvolvimento desse tipo de compaixão não é nada fácil! Para começar, vamos considerar os seguintes fatos:

Se as pessoas são bonitas e amigáveis ou pouco atraentes e importunas, em última análise, são seres humanos, assim como você. Como você, querem a felicidade e não querem sofrimento. Além disso, o direito deles de superar o sofrimento e serem felizes é igual ao seu. Agora, quando você reconhece que todos os seres são iguais em seu desejo de felicidade e em seu direito de obtê-la, você automaticamente sente empatia e uma proximidade para com eles. Se você acostumar sua mente com esse sentimento de altruísmo universal, você desenvolve um sentimento de responsabilidade para com os outros: o desejo de ajudá-los a superar ativamente seus problemas. Esse não é um desejo seletivo, pois se aplica igualmente a todos. Enquanto eles são seres humanos, irão experimentar o prazer e a dor, assim como você, portanto não há base lógica para discriminá-los ou alterar a sua preocupação por eles, nem se eles se comportarem negativamente.

Quero enfatizar que está em suas mãos, desde que tenha paciência e tempo, desenvolver esse tipo de compaixão. Claro, nosso egocentrismo, nosso apego distintivo com uma sensação de uma organização independente, auto existente, trabalha fundamentalmente para inibir a nossa compaixão. De fato, a verdadeira compaixão pode ser experimentada somente quando esse tipo de egoísmo for eliminado. Porém, isso não significa que não podemos começar agora e fazer progressos.

 

Como podemos começar

Devemos começar por remover os maiores obstáculos para a compaixão: raiva e ódio. Como todos sabemos, essas são emoções extremamente poderosas e podem dominar toda a nossa mente. Entretanto, elas podem ser controladas. Se, contudo, não forem, essas emoções negativas irão nos afligir – sem nenhum esforço extra delas! – e impedirão nossa busca pela felicidade de uma mente amorosa.

Então, para começar, é útil investigar se a raiva tem ou não algum valor. Às vezes, quando estamos desanimados por uma situação difícil, a raiva parece útil, aparecendo para trazer com ela mais energia, confiança e determinação.

Aqui, porém, devemos examinar cuidadosamente o nosso estado mental. É verdade que a raiva traz energia extra, mas se explorarmos a natureza dessa energia descobriremos que ela é cega: não podemos ter certeza se o resultado será positivo ou negativo. Isso é porque a raiva ofusca a melhor parte do nosso cérebro: a sua racionalidade. Assim, a energia da raiva quase nunca é confiável. Ela pode causar uma série de comportamentos destrutivos e lamentáveis. Além disso, se a raiva aumenta ao extremo, poderá nos enlouquecer, atuando de maneira muito prejudicial a nós mesmos ou aos outros.

É possível, no entanto, desenvolver uma energia igualmente forte, mas muito mais controlada, com a finalidade de lidar com as situações difíceis.

Essa energia controlada não vem apenas de uma atitude compassiva, mas também da razão e da paciência. Esses são os antídotos mais poderosos contra a raiva. Infelizmente, muitas pessoas julgam mal essas qualidades como sinais de fraqueza. Eu acredito que o oposto é verdadeiro: que eles são os verdadeiros sinais de uma força interior. A compaixão é, por natureza, gentil, pacífica e suave, mas é também muito poderosa. São aqueles que perdem facilmente a paciência que são verdadeiramente inseguros e instáveis. Assim, para mim, a incitação da raiva é um sinal direto de fraqueza.

Então, quando um problema surge pela primeira vez, tente permanecer humilde, mantenha uma atitude sincera e veja se o resultado será justo. Claro, outras pessoas podem tentar tirar vantagem de você e se eles incentivarem a agressão injusta, adote uma posição forte. Isso, no entanto, deve ser feito com compaixão e se for necessário, para expressar seu ponto de vista e tomar contramedidas fortes, faça-o sem raiva ou más intenções.

Você deve perceber que, apesar de seus adversários parecerem estar prejudicando você, no final, a atividade destrutiva deles irá prejudicar apenas eles mesmos. A fim de verificar o seu próprio impulso egoísta de retaliar, você deve lembrar-se de seu desejo de praticar a compaixão e assumir a responsabilidade de ajudar a impedir que outras pessoas sofram as consequências de seus atos.

Assim, pelo fato de as medidas que você empregou terem sido calmamente escolhidas, elas serão mais eficazes, mais precisas e mais fortes. A retaliação com base na energia cega da raiva raramente atinge o alvo.

 

Amigos e inimigos

Devo enfatizar mais uma vez que, apenas pensar que a compaixão, a razão e a paciência são boas, não será suficiente para desenvolvê-las. Devemos esperar pela dificuldade e, em seguida, tentar praticá-las.

E quem cria essas oportunidades? Não são os nossos amigos, é claro, mas sim os nossos inimigos. Eles são os únicos que nos dão mais problemas. Então, se quisermos realmente aprender, devemos considerar os inimigos como nossos melhores professores!

Para uma pessoa que preza pela compaixão e pelo amor, a prática da tolerância é essencial e, por isso, um inimigo é indispensável. Então, devemos nos sentir gratos aos nossos inimigos, pois são eles que podem melhor nos ajudar a desenvolver uma mente tranquila! Além disso, há frequentemente o caso na vida pessoal e pública, que, com uma mudança de circunstância, os inimigos se tornam amigos.

Assim, raiva e ódio são sempre prejudiciais e a menos que nós treinemos nossas mentes e trabalhemos para reduzir sua força negativa, eles irão continuar nos incomodando e perturbando as nossas tentativas de desenvolver uma mente calma. A raiva e o ódio são os nossos verdadeiros inimigos. Essas são as forças que mais precisamos enfrentar e derrotar, e não os inimigos temporários que aparecem de vez em quando ao longo da vida.

Claro, é natural e justo que todos nós queiramos amigos. Costumo brincar que, se você realmente quer ser egoísta, você deveria ser muito altruísta! Você deveria cuidar bem dos outros, estar preocupado com o bem-estar deles, ajudá-los, atendê-los, fazer mais amigos, arrancar mais sorrisos e o resultado? Quando você precisar de ajuda, você encontrará muitos ajudantes! Se, por outro lado, você negligenciar a felicidade dos outros, no longo prazo, você será o perdedor. Você acha que a amizade é produzida através de brigas e da raiva, do ciúme e da intensa competitividade? Acho que não. Apenas afeição nos traz amigos genuínos.

Na sociedade materialista de hoje, se você tem dinheiro e poder, parece que você tem muitos amigos. Mas eles não são seus amigos, pois eles são os amigos de seu dinheiro e poder. Quando perder a sua riqueza e influência, será muito difícil localizar essas mesmas pessoas.

O problema é que quando as coisas vão bem para nós, tornamo-nos confiantes de que podemos gerenciar tudo sozinhos e sentimos que não precisamos de amigos, mas quando a nossa posição e saúde declinam, rapidamente perceberemos o quão errado estávamos. Esse é o momento em que ficamos sabendo o que é realmente útil e o que é completamente inútil. Então, para se preparar para esse momento, para fazer amigos verdadeiros, que nos ajudarão quando for necessário, nós mesmos devemos cultivar o altruísmo!

Embora às vezes as pessoas riam quando eu digo isso, eu mesmo quero sempre mais amigos. Eu amo sorrisos. Devido a isso eu tenho o problema de saber como fazer mais amigos e como obter mais sorrisos, em particular, sorrisos genuínos. Porque há muitos tipos de sorriso, como os sorrisos sarcásticos, artificiais ou diplomáticos. Muitos sorrisos não produzem sensação de satisfação, e às vezes, podem até mesmo criar desconfiança ou medo, não podem? Mas um sorriso genuíno realmente nos dá uma sensação de frescor e é, creio eu, exclusivo para os seres humanos. Se esses são os sorrisos que queremos, então, nós mesmos temos que criar as razões para que eles apareçam.

 

A compaixão e o mundo

Para concluir, gostaria de expandir rapidamente meus pensamentos para além do tema deste pequeno artigo e abordar um tópico mais amplo: a felicidade individual pode contribuir de uma forma profunda e eficaz para a melhoria global de toda a nossa comunidade humana.

Devido ao fato de todos nós compartilharmos uma idêntica necessidade de amor, é possível sentirmos por todos que encontramos, em quaisquer circunstâncias, como se fossem nosso irmão ou irmã. Não importa o quão novo é o rosto ou o quão diferente é a vestimenta e o comportamento, não há uma divisão significativa entre nós e as outras pessoas. É tolice insistir em diferenças externas, porque nossas naturezas básicas são as mesmas.

Em última análise, a humanidade é uma só e este pequeno planeta é nossa única casa. Se quisermos proteger esta nossa casa, cada um de nós precisa experimentar um sentimento vivo de altruísmo universal. Somente esse sentimento será capaz de remover os motivos autocentrados que levam as pessoas a enganar e a maltratar umas as outras.

Se você tem um coração sincero e aberto, você naturalmente tem autoestima elevada e confiança, então, não há necessidade de ter medo dos outros.

Eu acredito que em todos os níveis da sociedade – familiar, racial, nacional e internacional – a chave para um mundo mais feliz e mais próspero é o crescimento da compaixão. Nós não precisamos nos tornar religiosos, nem precisamos acreditar em uma ideologia. Tudo o que é necessário é que cada um de nós desenvolva nossas qualidades humanas.

Eu tento tratar todos com quem encontro como um velho amigo. Isso me dá um verdadeiro sentimento de felicidade. Essa é a prática da compaixão.

*Traduzido por Fernando Schneider (2013).

Texto original: https://www.dalailama.com/messages/compassion-and-human-values/compassion/

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Responsabilidade Universal no Mundo Moderno (*)

 

(Transcrição da Palestra Pública de Sua Santidade no Royal Albert Hall, Londres, Reino Unido, 22 de maio de 2008).

Riki Hyde-Chambers (Presidente da Tibet Society): Senhoras e senhores, é com imenso privilégio que vos apresento Sua Santidade Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama do Tibete.

Alguém na plateia: Nós te amamos.

Sua Santidade o Dalai Lama: Obrigado.

Em primeiro lugar, deixe-me sentar mais confortavelmente. Não se preocupem, não vou começar a meditar em silêncio. Muito obrigado. Estou muito, muito feliz por poder me reunir com o público neste auditório mais uma vez. Eu acho que é a terceira vez ou talvez a segunda. Não me lembro.

Queridos irmãos e irmãs, estou extremamente feliz por poder me sentar aqui e interagir com vocês. Vou começar falando por cerca de 30, 40 minutos. Quando falo, geralmente não há uma duração exata, depende do meu humor. Se meu humor estiver bom, falo por mais tempo, se meu humor não estiver tão bom, a conversa será mais curta. Sempre que dou uma palestra não faço nenhuma preparação nem tenho quaisquer anotações. Apenas expresso o que sinto de uma forma completamente informal. Em seguida, haverão algumas perguntas. Isso será útil para mim, porque às vezes há perguntas inesperadas ou assuntos que eu nunca havia considerado. Isso me ajuda a pensar sobre o assunto mais seriamente, assim, há um benefício mútuo.

Para começar, quero agradecer aos organizadores, principalmente a Tibet Society. Acho que é a sociedade mais antiga desse tipo, formada quando nos tornamos refugiados, para apoiar a causa do Tibete. Lembro-me do Sr. Ennals e dos outros membros ativos que fizeram uma grande contribuição para a causa tibetana. Ele não está mais entre nós, mas Riki estava aqui na minha primeira visita, em 1973, e desde então em seu rosto, não houve muita mudança. Ele não é fisicamente muito grande, mas é cheio de energia e é muito caloroso. Essas pessoas carregam o espírito original e o fazem ficar ainda mais forte. Quero agradecer a Tibet Society e os nossos outros amigos e apoiadores. Muito obrigado. Entre os parlamentares, há uma série de pessoas que mostram uma preocupação genuína. Obrigado. Sempre acreditei que os nossos apoiadores não são somente pró tibetanos, mas sim pró justiça. Eu aprecio muito isso.

Também quero agradecer aos músicos e dançarinos tibetanos. Gostei muito deles. Por quase meio século eles estão desalojados. As gerações mudam, mas o nosso povo mantêm o espírito tibetano vivo. Aqui na Inglaterra há poucos tibetanos, mas eles mantêm o nosso espírito muito vivo. Não só isso, as crianças que nasceram aqui receberam como herança o espírito tibetano de seus pais. Uma herança da geração mais velha para a geração mais jovem. Esse era o nosso objetivo inicial. Logo após nos tornarmos refugiados, a nossa principal preocupação era preservar a rica cultura budista tibetana. Em outras palavras, uma cultura de paz e de compaixão. Hoje, isso é algo muito relevante para esse mundo. Portanto, desde o início, o nosso principal esforço tem sido o de preservar a cultura tibetana. Hoje, nossas principais discussões com as autoridades chinesas são sobre como proteger o patrimônio cultural do Tibete. Essa é a nossa principal preocupação. Aqui, esse pequeno grupo esforçou-se para preservar o nosso espírito, a nossa herança cultural. Muito obrigado.

Voltando para a palestra, acho que a maioria de vocês sabe que eu tenho duas preocupações principais. Número 1 – agora por causa dessa luz é necessário [veste o boné]. Esta não é a seita do chapéu vermelho, a seita do chapéu amarelo ou a seita do chapéu azul. É algo muito prático. Meu principal interesse, o meu principal compromisso, que faço de forma voluntária, são duas coisas: 1) a promoção dos valores humanos e 2) a promoção da tolerância religiosa. Estou comprometido com essas duas coisas até a minha morte. O terceiro compromisso é com relação ao problema/luta tibetana. Essa última não é necessariamente um compromisso voluntário, por causa dos fatos históricos. A coisa mais importante é que o povo tibetano, dentro e fora do Tibete, confia muito em mim e deposita muita esperança em mim, então, tenho a responsabilidade moral de atendê-los da melhor forma que eu puder. É claro que a minha capacidade, conhecimento e experiência em diversas áreas são muito limitadas, mas é minha responsabilidade moral atendê-los da maneira que eu puder. Porém, há um limite de tempo. Já estou em um cargo algo como semiaposentado, pois tivemos líderes políticos eleitos em 2001. Então, a minha posição é algo parecido com o de conselheiro sênior. Na maioria dos casos, o líder político escuta a minha opinião, mas às vezes isso não acontece. Isso é bom. Além disso, da minha parte, tenho algumas dúvidas em relação a algumas de suas políticas, mas sempre permaneço em silêncio. Dessa maneira estamos sinceramente praticando a democracia.

Quando viajo para dar palestras, eu geralmente falo sobre duas coisas: a promoção dos valores humanos e a promoção da tolerância religiosa. Porém, minhas recentes visitas aos Estados Unidos, Alemanha e agora aqui, tornaram-se muito mais politizadas por causa dos recentes acontecimentos no Tibete. Tudo bem. Assim, o tema da minha palestra aqui é a responsabilidade universal no mundo moderno. Desde a minha primeira visita à Europa, em 1973, eu carrego esta mensagem de responsabilidade universal, com um sentido de responsabilidade global. Desde que fui para a Índia em 1959, tive a oportunidade de conhecer uma variedade de pessoas – e meu inglês quebrado é bem útil para ouvir a BBC World Service – e me parece que estamos diante de muitos, essencialmente criados pelo homem, problemas. É claro que os desastres naturais são algo diferente, mas a maior parte dos nossos problemas é essencialmente de nossa própria criação. Ao mesmo tempo, ninguém quer problemas. Há algumas milhares de pessoas nesse auditório e eu acho que quando você se levanta bem cedo ou meio tarde, de manhã, ninguém espera ter mais problemas, mais dificuldades durante o dia. Ninguém sente isso. De manhã cedo, assim que acordo, eu creio, espero ou desejo que ele seja um dia agradável. Um dia alegre, sem problemas. Essa é a natureza humana. Essencialmente, a maioria dos desordeiros não o são intencionalmente, mas a sua abordagem se torna irrealista e isso causa problemas inesperados. Uma abordagem irrealista também não acontece intencionalmente, acontece por causa da falta de uma perspectiva holística, abrangente e em muitos casos por miopia. Assim, em última instância, há uma falta de senso de responsabilidade global, que nos divide em “nós” e “eles” e nos faz sentir que os nossos interesses são independentes dos outros. Consideramos nossos próprios interesses como os mais importantes e ignoramos os interesses dos outros. Isso cria um problema. Na realidade, os nossos interesses e os interesses dos outros estão muito interligados, somos parte dos 6 bilhões de seres humanos. Portanto, se seis bilhões de seres humanos são felizes, um indivíduo é obrigado a ser feliz. Se seis bilhões estiverem com problemas, você não pode escapar. Essa é a realidade. De acordo com essa realidade, o nosso conceito secular de que “nós” e “eles” são independentes está, penso eu, desatualizado. Agora, particularmente nesses tempos modernos, com as condições econômicas, as questões ambientais e o tamanho da população, tudo é interdependente. Então, nessas circunstâncias, de acordo com o conceito budista, você deveria considerar todos os seres sencientes como o ser senciente mãe, a quem você deve desenvolver o mesmo sentimento de proximidade que tem com sua própria mãe. Assim, de acordo com a doutrina teológica, toda a criação foi criada por Deus. Portanto, nós seres humanos, os outros seres sencientes e todo o mundo foram criados por Deus. Um amigo muçulmano me disse que um verdadeiro muçulmano deve amar toda a criação, da mesma maneira que ama a Deus. Palavras diferentes, uma abordagem diferente, mas com o mesmo significado. Por isso há a ideia de que há um senso de responsabilidade global, que devemos desenvolver um senso de preocupação por toda a humanidade, o mundo inteiro. Isso, eventualmente, está se desenvolvendo. Por mais de 30 anos esse tem sido o meu conceito e ele ainda é relevante nos dias hoje. Cada vez mais pessoas parecem concordar com ele.

Então, como desenvolver um sentimento de responsabilidade global? Está muito mais relacionado ao compromisso com a promoção da tolerância religiosa e dos valores humanos. Em primeiro lugar, vou abordar a promoção dos valores humanos.

O que são valores humanos? Dinheiro? Ah, sim. Isso é muito importante. Em tibetano dizemos Kunga Dhondup. Esse é o apelido de dinheiro, que significa literalmente, “aquele que faz todos felizes e pode conseguir tudo”. Isso é verdadeiro, sem dinheiro você não consegue fazer as coisas. Dinheiro é importante. Às vezes faço uma piada para um público budista, principalmente para os tibetanos: costumamos recitar um mantra especial tibetano, “Om Mani Padme Hum”. Alguns de vocês devem conhecer, eu acho. Recitamos, às vezes rapidamente, então fica: “Om Mani Padme Hum, Om Mani Padme Hum, Om Mani Padme Hum”, então tornar-se “OmMani, OmMani, Mani, Mani, Mani” [falado mais e mais rapidamente]. Ele parece muito com “money money money money”. Então, dinheiro tem seu valor e todas essas facilidades externas são valiosas. Pois bem. Mas todos eles oferecem conforto físico e não mental. Se você tiver muito dinheiro, você terá alguma satisfação na sua vida mental: “Ah, eu tenho muito dinheiro”. Isso é ilusório, pois observamos que um bilionário tem muito dinheiro, mas pode ser uma pessoa muito infeliz. Podemos observar isso. Eles têm muitas preocupações, ansiedade, desconfiança e ciúme. O dinheiro não lhes traz a paz interior. Mais dinheiro traz mais suspeita, desconforto e preocupações. Acreditar que se você tiver dinheiro tudo será resolvido, que você vai ter 100 por cento de satisfação, é uma ilusão. Mas, é claro, você tem de ser o juiz deste fato, porque eu nunca digo que os assuntos que eu falo estão 100 por cento corretos. Por favor, investiguem por si próprios. Eu mesmo estou treinado de modo que sempre estou investigando.

A tradição budista tibetana é de fato a tradição Nalanda. Nalanda é, eu acho que podemos afirmar, a universidade mais antiga que existe, porque tem mais de 2.000 anos de idade. Não é apenas um mosteiro, mas um centro de aprendizagem. A tradição budista tibetana foi criada por um grande filósofo indiano, um lógico, dessa universidade. Seu nome era Shantarakshita. No século VIII, ele foi convidado pelo imperador tibetano a vir para o Tibete. Ele tinha 900 anos, de acordo com o sistema de idade tibetano; de acordo com um amigo indiano ele tinha em torno de 75 anos. Esse amigo brinca que os tibetanos adicionam um zero a mais, de modo que 90 se tornou 900. Shantarakshita – seu nome soa bem, em tibetano Shiwa Tso – foi a pessoa que estabeleceu o budismo no Tibete, com a ajuda do imperador tibetano. Pelo fato de ele ter sido um grande estudioso e lógico, ele nunca estava satisfeito. Ele dizia, “investigar sempre, argumentar sempre, raciocinar sempre”. Esse era o seu estilo. Ele introduziu a tradição budista dessa forma. Até agora, a principal instituição budista tibetana sempre levou seus estudos dessa maneira: investigação, investigação. Eu também sou treinado em investigação e em experimentos, e por isso quero compartilhar com vocês, até mesmo sobre as minhas próprias ideias: “Por favor, continuem investigando”. Não aceitem facilmente minhas palavras.

A paz interior e a satisfação interior genuínas dependem de nossa atitude mental. Que tipo de atitude mental? Em primeiro lugar, somos animais sociais, por isso, deve haver um fator emocional que nos une como um grupo social. Há também um fator biológico. Nós nascemos do ventre de nossa mãe, e, naquele momento, somos como animais, pequenas crianças. Nossa sobrevivência depende totalmente do cuidado de alguém, geralmente de nossa mãe. Se a sua mãe o abandonar por apenas um, dois ou três dias,  acredito que você morreria. Nossa sobrevivência depende totalmente do cuidado dos outros. Além disso, o corpo físico sobrevive dos nutriente do leite da mãe. A sobrevivência dos jovens, não só dos seres humanos, mas dos gatos, dos cães e até mesmo dos pássaros, depende inteiramente do cuidado dos outros. Isso é um fato. Então, deve haver um fator emocional que desenvolveu esse tipo de determinação na mãe: o afeto da mãe. Esse afeto traz consigo a determinação de uma mãe em sacrificar seu próprio conforto ou até mesmo sua vida, a fim de proteger e cuidar.

Recentemente, eu estava em um voo noturno, acho que do Japão para os Estados Unidos ou dos Estados Unidos para a Europa. No assento da frente havia um casal com dois filhos. Um tinha talvez seis ou sete anos de idade e o outro um ano de idade. O mais novo não dormiu a noite inteira, ele estava andando para lá e para cá e gritava. Em certo momento, ofereci-lhe um doce que tinha no bolso. Ele o pegou e em seguida, continuou andando. No início, o pai estava cuidando do menino, mas depois da meia-noite, de repente, deitou-se no assento. Então, a mãe cuidou da criança por toda a noite. Os olhos da mãe até ficaram vermelhos devido, penso eu, à falta de sono. Assim, essa foi a reafirmação para mim de que as mães são muito, muito bondosas. Esse tipo de atitude não vem do ensino religioso, mas da natureza. É principalmente um fator biológico. O afeto é fundamentalmente a base da nossa vida.

Houve uma pesquisa científica sobre o assunto. Em certa ocasião, um cientista fez uma apresentação sobre macacos jovens, alguns dos quais estavam com suas mães e outros foram separados delas. Os macacos que estavam com suas mães eram sempre brincalhões e muito raramente brigavam. Os macacos que foram separados de suas mães estavam sempre de mau humor e brigavam frequentemente. Nós somos iguais. Portanto, uma vida pacífica e feliz está muito relacionada com a afeição. Em outra ocasião, um médico cientista em uma conferência, falou sobre como cobaias ou ratos, que se lambiam uns aos outros tiveram um efeito muito mais positivo na cicatrização de feridas. Isso também indica que o afeto tem um efeito sobre nossos corpos físicos bem como em nosso conforto mental. Portanto, podemos dizer que o afeto é um valor humano básico. Desde o momento do nascimento até a morte, o afeto ou a compaixão humana, desempenha um papel muito importante.

Agora que imensas crises têm se desenvolvido, a compaixão realmente faz a diferença. Meu próprio caso são os recentes acontecimentos de 10 de março. Na tarde de 10 de março, recebi notícias de Lhasa dizendo que alguns tibetanos estavam fazendo manifestações. Assim que eu ouvi isso, eu tive a mesma experiência de 10 de março de 1959: muita ansiedade e também medo. Ao nível de inteligência, houve muita ansiedade, medo, dúvida e incerteza. Mas, ao nível mais emocional, parecia que estava tudo bem. Normalmente eu durmo pelo menos oito ou nove horas. O que você acha, é muito? Felizmente, apesar de uma série de perturbações no nível da inteligência, meu sono nunca é perturbado. Então, parece haver certa serenidade. O principal fator de isso ocorrer é o meu treinamento e a meditação diária. Um tipo especial de meditação é “tomar para si e enviar”, “enviar e tomar para si”, a palavra tibetana é tonglen. Costumo meditar sobre isso, sobre o altruísmo. Claro, meu dia começa às 03h30min todas as manhãs, que é quando faço a meditação por pelo menos quatro horas, principalmente a meditação analítica. Uma parte da minha meditação é visualizar as pessoas que tomam decisões, e desenvolver o altruísmo. É muito importante fazer uma distinção entre a ação e a pessoa. Levando em consideração a ação, temos que nos opor quando necessário, para dar uma resposta. Mas a pessoa que realizou o delito realmente merece a nossa compaixão, nossa preocupação. Foi seu próprio ato errôneo, por isso, do ponto de vista budista, a partir do ponto de vista religioso não-teísta, de acordo com a lei da causalidade, eles têm que enfrentar as consequências. Portanto, há mais razão para sentir preocupação por esse instigador do que pelas suas vítimas. Visualize essas coisas, em seguida, tome a raiva, ódio e desconfiança deles e dê-lhes a compaixão, um espírito de perdão e paciência. Esse tipo de prática de meditação parece bobo porque é apenas imaginação. Sim, não tem nenhum efeito real. Mas o nível emocional do praticante obtém imensos benefícios dessa prática. Essa é a minha experiência, mas não é nada especial.

Já contei, anteriormente, a história de um monge tibetano que conheci bem antes de 1959, que passou 18 anos em um gulag [campo de concentração] chinês. No início dos anos 80, o governo chinês adotou uma nova política que permitia tibetanos irem para a Índia e permitia os tibetanos fora do Tibete voltar para “casa”, para as suas vilas. Portanto, este monge se mudou para Dharamsala. Então, como já nos conhecíamos muito bem, um dia nós conversamos. Ele me disse que durante 18 anos no gulag chinês havia enfrentado o perigo por algumas ocasiões. Eu pensei que talvez ele quisesse dizer que sua vida estava em perigo. Perguntei-lhe: “Que tipo de perigo?” Sua resposta foi: “Perigo de perder a compaixão para com os chineses”. Esse é o tipo de atitude que estou falando. O praticante adquire certo grau de paz interior através dessa prática e esse é um exemplo.

A fim de manter a paz interior, a compaixão realmente faz a diferença. Isso é muito importante. Quando falo de compaixão, acho que é válido ser mais preciso. Existe um tipo de compaixão que é essencialmente de nível inferior e tem um fator biológico, é a compaixão de nível inferior misturado com apego. Essa compaixão limitada, como uma semente, pode ser reforçada com a ajuda de raciocínio até se tornar de nível superior ou ilimitada, compaixão imparcial. Nós precisamos disso. Para dar um exemplo, como eu mencionei antes, para que meu próprio futuro seja feliz e bem sucedido como um animal social, como um dos seis bilhões de seres humanos, eu tenho que cuidar dos outros seres humanos, porque meu futuro depende deles, não é? Se eu criar mais inimigos irei sofrer. Se eu criar mais amigos irei me beneficiar. Como podemos criar amigos? Somente através de dinheiro? Não. O dinheiro pode trazer amigos, mas eles são, essencialmente, os amigos do dinheiro, não são seus amigos. Quando a sua fortuna cresce e você se torna mais rico, mais rico, mais rico, você vai encontrar mais amigos. Quando a sua fortuna se for, aqueles amigos também desaparecerão. Mesmo se você os telefonar, eles podem nem responder. Esses amigos não são realmente seus amigos, são amigos do seu dinheiro. Portanto, amigos de verdade só vêm de um sentimento de preocupação ou respeito. Respeite-os. Desenvolva um senso genuíno de preocupação, de compaixão, como até mesmo os animais fazem. Meu ponto principal é que uma semente de felicidade, de calma interior, de força interior, cria mais força interior, mais autoconfiança e menos medo. Isso faz com que, automaticamente, algum tipo de sentimento de proximidade para com outros seres humanos se desenvolva. Uma atitude compassiva abre nossa porta interior e como resultado disso, fica muito mais fácil se comunicar com os outros. Se houver muita atitude autocentrada, então, o medo, a dúvida e a suspeita virão, e como resultado a nossa porta interior se fecha. Então, fica muito difícil de se comunicar com os outros.

Um médico em uma conferência nos Estados Unidos apresentou os dados de um experimento que ele tinha feito. Ele disse que as pessoas que costumam usar as palavras “mim”, “meu” e “eu”, correm um risco maior de ataque cardíaco. Por que isso? Ele não explicou. Mas eu pensei: “Ah, isso pode ser verdade”, porque uma pessoa egoísta é alguém que estima somente a si mesmo ou mesma e esse sentimento se reflete em seu uso da palavra “eu”. Não há nada de errado com essa palavra, mas a atitude por trás dela está em pensar apenas em si mesmo. Se você pensar só em si próprio, até mesmo um pequeno problema parece insuportável. Se você pensar mais no bem-estar do outros – “outros” é infinito – sua mente se abre mais e seu problema parece insignificante. O mesmo problema, a mesma tragédia pode parecer muito diferente. De um ângulo, você pode ver algo como sendo muito ruim. De outro ângulo, você pode vê-lo e dizer: “Está tudo bem.” Isso acontece muitas vezes, e portanto, uma atitude compassiva realmente amplia sua mente. Um pequeno problema não é algo muito sério. Isso faz a diferença para nossa paz interior. Esse é o caminho para promover os valore humanos, que é a base da nossa paz interior. Esse é um fator muito importante para se ter uma vida feliz, incluindo um corpo saudável.

Um cientista me disse que a raiva, o ódio e o medo estão de fato comendo nosso sistema imunológico. Compaixão fortalece nosso sistema imunológico. Portanto, levando em consideração a saúde física e mental – por causa da paz de espírito – o calor humano é um fator chave. Isso, como já mencionei anteriormente, não necessariamente vem da fé religiosa, mas sim da natureza. Por isso eu costumo chamá-la de “ética secular”. Isso é muito, muito importante para a paz. A paz mundial genuína e duradoura deve partir da paz interior. Às vezes me refiro a isso como “desarmamento interior”. Através da raiva e do ódio, é muito difícil ter paz genuína. Mesmo, em uma família, se você estiver cheio de ódio e desconfiança, como você poderá ter paz genuína nessa família? A compaixão traz a paz real.

Em nível global, precisamos do desarmamento externo para a verdadeira paz no mundo. Se houver primeiro o desarmamento interior, existe uma real possibilidade de alcançarmos o desarmamento externo, passo a passo. Eu costumo falar “meu século”, sobre a geração mais velha, os com mais ou menos a minha idade, 60 ou 70, que pertencem ao século XX. O nosso século, quer gostemos ou não, tornou-se o século do derramamento de sangue, guerra e violência. Nossa geração vai deixar a geração mais nova resolver os problemas que nós começamos. A nova geração, que pertence a este século, o século XXI, terá, esperamos que assim seja, um século pacífico. Paz não significa a inexistência de conflitos entre a humanidade. Conflitos podem acontecer, por isso, para manter a paz, apesar do conflito, o único método realista é o espírito de diálogo, respeitando o outro lado e compreendendo seu ponto de vista. Precisamos tentar resolver os problemas dentro de um espírito de irmandade, num espírito de reconciliação e de compromisso. Costumo compartilhar isso com as pessoas: vamos agora tentar fazer deste século um século de diálogo. Assim, haverá a possibilidade real de paz.

Então, isso era sobre a promoção de valores humanos. Agora vou falar sobre a promoção da tolerância religiosa. Se você tem um senso de responsabilidade global, todos os seres humanos, incluindo os não crentes e mesmo aqueles que criticam a religião, os que são anti-religião, são seus irmãos e irmãs. Uma vez que geramos esse sentimento, não haverá mais problema com as pessoas de diferentes religiões. É um direito delas. Se você olhar de perto, todas as grandes tradições religiosas, como mencionei brevemente antes, carregam a mesma mensagem de amor, compaixão e perdão. Uma abordagem diferente é necessária por causa dos diferentes lugares, diferentes épocas e climas diferentes. A mentalidade das pessoas é um pouco diferente. Portanto, uma abordagem diferente é necessária para promover esses valores humanos. Todas as grandes tradições religiosas levam a mensagem de amor e um sentimento de irmandade. Portanto, é apenas uma questão de abordagem diferente. Alguns dizem que Deus existe, que Deus fez todas as coisas e que são, portanto, irmãos e irmãs em um sentido verdadeiro. Alguns dizem que é a lei da causalidade. Mais uma vez, boas experiências vêm do amor e do respeito pelos outros. Experiências ruins vêm dos atos prejudiciais aos outros. Isso traz consequências negativas. É o mesmo fim, mas com uma abordagem diferente. Portanto, se você entender essas coisas, você vai ver que não há nenhum obstáculo para obter a verdadeira harmonia entre as tradições religiosas. Pode ser útil aqui fazer uma distinção entre fé e respeito. Fé você tem pela sua própria religião e respeito é por todas as religiões. Isso é uma coisa. Outra coisa é o conceito de uma religião, uma verdade e o conceito de várias verdades, várias religiões. Essas duas coisas parecem contraditórias, mas isso é devido ao contexto diferente. Numa base individual, o conceito de uma verdade, uma religião é muito importante no desenvolvimento de uma fé única, mas em termos de um grupo de pessoas, o conceito de várias verdades, várias religiões é relevante. Isso é um fato. Essa é a realidade. Portanto, não há contradição entre o conceito de uma verdade, uma religião e o conceito de várias verdades, várias religiões. Essa é a minha maneira de promover a tolerância religiosa. Ponto final. Agora, as perguntas e respostas.

Membro do Parlamento Norman Baker: Sua Santidade, muito obrigado por essa palestra maravilhosa, calorosa e compassiva. Você encantou a plateia, que ouviu cada palavra aqui no Royal Albert Hall. Estamos todos muito contentes por você estar em Londres e por o ouvir nesta tarde. Você é um farol de esperança e inspiração, não apenas para os tibetanos, mas para muitos milhões de pessoas em todo o mundo. Obrigado.

Senhoras e senhores, eu sou Norman Baker, Membro do Parlamento, presidente da Tibet Society. É com enorme privilégio que conduzo essa sessão de perguntas e respostas, que receio, será necessariamente um pouco truncada, pois a Sua Santidade tem um compromisso muito importante, logo após esse compromisso conosco. Então, direto às perguntas, se me permitem.

A primeira pergunta é: “Quais é a sua opinião sobre os terremotos na China?”

Sua Santidade o Dalai Lama: Eu fiquei muito triste e muito chocado, principalmente quando vi a foto do jovem estudante que morreu sob os escombros da escola que desabou. Imediatamente senti: “Ah, devido à política do filho único, muitos dos pais desses alunos têm apenas um filho”. Uma mãe, um filho. Quanta dor essas mães e pais estão sentindo? Seu único filho. Isso é muito triste. Mas uma coisa muito encorajadora foi a resposta de todo o mundo, semelhante ao do tsunami quando aconteceu. Com o caso de Mianmar também, apesar de a maneira com que a força militar lidou com a situação ter sido muito pobre, acho que a resposta tem sido maravilhosa. O caso chinês também é muito encorajador, incluindo a resposta dos tibetanos que haviam sofrido muito recentemente. Por exemplo, os monges do mosteiro Drepung, perto de Lhasa, tem sofrido muito nos últimos tempos. Muitos monges foram detidos ou estão desaparecidos, mas, após o terremoto, os monges desse mosteiro também arrecadaram fundos para as vítimas. Outro sinal encorajador é a maneira transparente com que o governo chinês lidou com esse problema. Isso é muito, muito animador. Então, espero que agora haja mais transparência de maneira mais ampla.

Norman Baker: Obrigado. A segunda questão é um pouco diferente: “O que lhe faz rir?”

Sua Santidade o Dalai Lama: Em uma palavra, o amor, em outra, eu imediatamente rio dos pequenos erros dos outros. Uma vez em Londres, visitamos um lugar, não me lembro de onde, em que um jovem tibetano estava apresentando uma dança ou algo parecido. A criança estava usando sapatos muito grandes e logo que eu vi esses sapatos grandes eu ri muito. Às vezes, as pessoas são demasiadamente sérias. Uma vez na Cidade do México em uma missa multi-religiosa, havia alguns representantes de diferentes tradições, incluindo um representante do budismo japonês. Como de costume, ele era muito sério – ou muito digno – e como de costume, ele fazia assim com o rosário. Então, de alguma forma a corda arrebentou e as contas se espalharam por toda parte. Mas ele nem se mexeu. Eu ri muito com isso.

Norman Baker: A terceira pergunta é: “O que podemos fazer no Reino Unido para ajudar na luta de manter o Tibete e suas maravilhosas tradições vivas?”

Sua Santidade o Dalai Lama: Obrigado por sua preocupação. Nosso principal objetivo, como todos sabem, não é buscar a separação, porque os nossos interesses permanecem na República Popular da China. Temos muito a nos beneficiar com isso, se levarmos em conta o desenvolvimento material, desde que tenhamos uma significativa autonomia, com a salvaguarda de preservar a nossa cultura. Não há tempo para explicar em detalhes agora, mas recentemente o governo chinês pareceu estar dando mais atenção para o problema tibetano. Além disso, acho que a evidente demonstração de preocupação em todo o mundo definitivamente impacta sobre os líderes do governo chinês. Então, por favor, continuem a manifestar a sua solidariedade e preocupação. É realmente útil. Eu particularmente aprecio a preocupação sincera dos parlamentares e seu desejo em ajudar. Isso é realmente muito útil. Por favor, continuem. E então, onde quer que você encontre uma oportunidade de falar com os irmãos e irmãs chineses, então fale. Eduque-os, porque alguns dos chineses não têm a informação completa sobre a realidade. Às vezes, há uma sensação de que nós, tibetanos somos contra os chineses, mas nós absolutamente não somos. Por isso, é importante educá-los.

Norman Baker: Infelizmente, foi-me dito que só é permitido mais uma pergunta. Sinto muito por isso. “Você gostaria de renasce em Londres?”

Sua Santidade o Dalai Lama: O que você quer dizer com “renascer”?

Norman Baker: Reencarnar.

Sua Santidade o Dalai Lama: Sim, isso é possível. Desde a minha infância, descrevemos ingleses como “narigudos”. Assim, a minha próxima reencarnação poderia ser como narigudo! Isto é, teoricamente falando. É importante que haja alguma utilidade. Assim como sempre rezo, enquanto a dor e o sofrimento dos seres sencientes permanecerem, eu permanecerei, a fim de serví-los. Esse é o meu tipo favorito de oração. Tento desenvolver esse tipo de determinação. Então, naturalmente, minha próxima vida será onde quer que ela tenha alguma utilidade. Isso é de certeza. Então, se houver mais utilidade, então, naturalmente, renascerei aqui.

Norman Baker: Nós adoraríamos o ter aqui entre nós. Senhoras e senhores, fui perguntado pela BBC esta semana, “Por que o Tibete?”. Não é simplesmente pela maravilhosa cultura e história do país, nem pelos terríveis abusos dos direitos humanos que ocorreram lá, nem pela liderança inspiradora de Sua Santidade. É porque a causa tibetana é também a nossa causa, uma luta pelo direito de cada pessoa de ser livre, de dizer o que quer dizer, sem estar sujeito à detenção, prisão ou tortura. Pelo direito de poder se manifestar pacificamente pelas causas em que eles acreditam. Pela possibilidade de seguir uma religião e cultura, sem serem intimidados pelo Estado ou por outras pessoas. Essa não é unicamente a causa tibetana, essa deveria ser a causa de todos nós. Em seu programa, você já deve ter visto alguns dos pontos de ação que alguns de nós estamos buscando no parlamento e que a Tibet Society está buscando também. Por favor, tirem um instante para olhar para eles e veja se você pode ajudar de alguma forma. Se você não é um membro da Tibet Society, por favor, junte-se a nós e ajude-nos em nossa campanha pela justiça, para que possamos aguardar o dia, um dia não muito distante, espero, em que o Tibete será mais uma vez livre e poderemos nos encontrar em Lhasa.

Por último, quero lhes contar sobre uma iniciativa que, espero, Sua Santidade, você vai concordar. Ela é chamada de “Dê uma Mão para a Paz”. Em instantes você vai, eu espero, apertar a minha mão e há duas crianças tibetanas a quem passarei esse aperto de mão. Há também 2.000 pessoas daqui até a Embaixada da China e esse aperto de mãos da paz sairá daqui até chegar à Embaixada da China. Espero muito que essa seja uma mensagem de paz e reconciliação, dando assim um fim construtivo para esse encontro tão útil e maravilhoso desta tarde. Muito obrigado por terem vindo.

*Traduzido por Fernando Schneider (2013).

Texto original: https://www.dalailama.com/messages/transcripts-and-interviews/universal-responsibility-modern-world/

 

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Uma Abordagem Humana para a Paz Mundial (*)

 

Quando levantamos pela manhã e ouvimos o rádio ou lemos o jornal, somos confrontados com as mesmas tristes notícias: violência, crimes, guerras e desastres. Não me lembro de um único dia que não houve relato de algo terrível acontecendo em algum lugar. Mesmo nestes tempos modernos, é evidente que a vida, que é tão preciosa, não está segura. As gerações anteriores nunca experimentaram tantas más notícias como vemos nos dias de hoje. Essa constante sensação de medo e tensão deve fazer qualquer pessoa sensível e compassiva questionar seriamente o progresso do nosso mundo moderno.

É irônico que os problemas mais graves emanam das sociedades mais avançadas industrialmente. A ciência e a tecnologia têm desenvolvido maravilhas em muitos campos, mas os problemas humanos básicos permanecem. Há alfabetização sem precedentes, mas essa educação universal parece não ter promovido a bondade, apenas inquietude mental e descontentamento. Não há dúvida dos benefícios do nosso progresso material e tecnológico, mas de algum modo isso não é suficiente, nós ainda não conseguimos atingir a paz e a felicidade ou a superação do sofrimento.

Podemos concluir que deve haver algo muito errado com o nosso progresso e desenvolvimento, e se nós não revisarmos isso a tempo, poderá haver consequências desastrosas para o futuro da humanidade. Eu não sou contra ciência e tecnologia – elas têm contribuído imensamente para a experiência geral da humanidade, para nosso conforto material e bem-estar e para a nossa maior compreensão do mundo em que vivemos. Mas se dermos muita ênfase à ciência e tecnologia, estaremos em perigo de perder o contato com os aspectos do conhecimento e da compreensão humana que aspira à honestidade e ao altruísmo.

Ciência e tecnologia, embora sejam capazes de criar incomensurável conforto material, não podem substituir os antigos valores espirituais e humanitários que moldaram a civilização mundial em todas as suas nações, tal como a conhecemos hoje. Ninguém pode negar o benefício material sem precedentes proveniente da ciência e da tecnologia, mas nossos problemas humanos básicos permanecem, ainda somos confrontados com o mesmo – se não mais – sofrimento, medo e tensão. Assim, a lógica é tentarmos encontrar um equilíbrio entre o desenvolvimento material, por um lado, juntamente com o desenvolvimento de valores humanos, espirituais, por outro. A fim de realizar este grande ajuste, precisamos reavivar nossos valores humanitários.

Tenho certeza de que muitas pessoas têm a mesma preocupação com a atual crise moral em todo o mundo e irão se unir a meu apelo juntamente com todos os trabalhadores humanitários e praticantes religiosos, que também sentem essa preocupação, para ajudar a tornar nossas sociedades mais compassiva, justa e equitativa. Eu não falo como um budista ou mesmo como um tibetano. Nem falo como um especialista em política internacional (embora eu inevitavelmente comente sobre estes assuntos). Em vez disso, eu falo simplesmente como um ser humano, como um defensor dos valores humanitários que são a base não só do Budismo Mahayana, mas de todas as grandes religiões do mundo. A partir desta perspectiva quero compartilhar com vocês a minha visão pessoal, que:

1.  Humanitarismo universal é essencial para resolver os problemas globais;
2. Compaixão é o pilar da paz mundial;
3. Todas as religiões do mundo já defendem a paz mundial, dessa forma, são todos humanitários de alguma ideologia;
4. Cada indivíduo tem a responsabilidade universal de moldar as instituições para servir as necessidades humanas.

 

Solucionando os problemas humanos através da transformação das atitudes humanas

Dos muitos problemas que enfrentamos hoje, alguns são calamidades naturais e devem ser aceitos e encarados com equanimidade. Outros, porém, são de nossa própria autoria, criados pelos nossos equívocos e podem ser corrigidos. Um exemplo é o conflito de ideologias, políticas ou religiões, quando as pessoas lutam entre si por motivos triviais, perdendo de vista a humanidade básica que liga todos nós como uma única família humana. Devemos lembrar que as diferentes religiões, ideologias e sistemas políticos do mundo existem para que os seres humanos alcancem a felicidade. Não devemos perder de vista este objetivo fundamental e em nenhum momento devemos colocar os meios acima do fim; a supremacia do homem sobre a matéria e a ideologia deve ser sempre mantida.

De longe, o maior perigo que a humanidade enfrenta – na verdade, todos os seres vivos do nosso planeta – é a ameaça de destruição por armas nucleares. Eu não preciso discorrer sobre esse perigo, mas eu gostaria de fazer um apelo a todos os líderes das potências nucleares que, literalmente, têm o futuro do mundo em suas mãos, aos cientistas e técnicos que continuam a criar essas armas incríveis de destruição e a todas as pessoas em geral que estão em posição de influenciar seus líderes: faço-lhes um apelo para que exerçam sua sanidade e comecem a desmontar e destruir todas as armas nucleares. Sabemos que, no caso de uma guerra nuclear, não haverá vencedores, porque não haverá sobreviventes! Não é assustador apenas contemplar essa destruição desumana e cruel? Então, não é lógico que removamos a causa de nossa própria destruição enquanto sabemos sua origem e temos tempo e os meios para fazê-lo? Muitas vezes não conseguimos superar nossos problemas porque não sabemos a causa ou, se sabemos, não temos os meios para removê-los. Este não é o caso da ameaça nuclear.

Tanto as espécies mais evoluídas, como os seres humanos quanto as mais simples, como os animais, todos os seres buscam primordialmente paz, conforto e segurança. A vida é prezada tanto para um animal mudo como é para qualquer ser humano. Até mesmo o mais simples inseto se esforça para se proteger contra os perigos que ameaçam sua vida. Assim como cada um de nós quer viver e não quer morrer, é também com todas as outras criaturas no universo, embora seu poder de efetuar isso seja outra questão.

De um modo geral, existem dois tipos de felicidade e sofrimento: físico e mental, e dos dois, acredito que o sofrimento e a felicidade mental são os mais agudos. Por isso, repito o treinamento da mente para suportar o sofrimento e atingir um estado mais duradouro de felicidade. No entanto, eu também tenho uma ideia mais genérica e concreta de felicidade: a combinação de paz interior, desenvolvimento econômico, e, acima de tudo, a paz mundial. Para alcançar tais objetivos, sinto ser necessário desenvolver um senso de responsabilidade universal, uma profunda preocupação para com todos, independentemente de credo, cor, sexo ou nacionalidade.

A premissa por trás desta ideia de responsabilidade universal é o simples fato de que, em termos gerais, os desejos de todos os outros são os mesmos que o meu. Todo ser quer felicidade e não quer sofrer. Se nós, seres humanos inteligentes, não aceitarmos este fato, haverá cada vez mais sofrimento neste planeta. Se adotarmos uma abordagem autocentrada para a vida e constantemente tentarmos usar os outros para o nosso próprio interesse, podemos ter benefícios temporários, mas em longo prazo, não teremos sucesso na obtenção nem mesmo da felicidade pessoal e a paz mundial estará completamente fora de questão.

Em sua busca pela felicidade, os seres humanos têm usado métodos diferentes, que muitas vezes têm sido cruéis e repulvivos. Comportando-se de maneiras totalmente impróprias à sua condição de seres humanos, eles infligem sofrimento a outros seres humanos e demais seres vivos para seus próprios ganhos egoístas. No fim das contas, essas ações míopes trazem sofrimento para si mesmo, bem como para os outros. O nascimento de um ser humano é um evento raro por si só e é aconselhável que se use esta oportunidade da forma mais eficaz e hábil possível. Devemos ter a devida perspectiva do processo da vida universal, de modo que a felicidade ou a glória de uma pessoa ou grupo não ocorra em detrimento dos outros.

Tudo isso exige uma nova abordagem para os problemas globais. O mundo está se tornando cada vez menor – e cada vez mais interdependente – como resultado de rápidos avanços tecnológicos e do comércio internacional, bem como do aumento das relações internacionais. Agora, nós dependemos muito uns dos outros. Nos tempos antigos, os problemas eram em sua maioria de tamanho familiar, e eles eram naturalmente abordados a nível familiar, mas a situação mudou. Hoje, somos tão interdependentes, tão intimamente interligados uns com os outros, que, sem um senso de responsabilidade universal, um sentimento de irmandade universal e um entendimento e convicção de que realmente somos parte de uma grande família humana, não podemos querer superar os perigos da nossa própria existência – e muito menos alcançar a paz e a felicidade.

Os problemas de uma nação não podem mais ser resolvidos por ela própria de forma satisfatória, pois dependem muito do interesse, atitude e cooperação de outras nações. A abordagem humanitária universal para os problemas do mundo parece ser a única base sólida para a paz mundial. O que isso significa? Começamos a partir do reconhecimento mencionado anteriormente de que todos os seres valorizam a felicidade e não querem sofrer. Assim, torna-se moralmente errado e pragmaticamente insensato perseguir apenas a própria felicidade, alheia aos sentimentos e aspirações de todos os outros que nos rodeiam, como membros da mesma família humana. O caminho mais sensato é pensar nos outros também ao perseguir nossa própria felicidade. Isto levará ao que eu chamo de “sábio autointeresse”, que espero que venha a se transformar em “autointeresse comprometido”, ou ainda melhor, “interesse mútuo”.

Embora a crescente interdependência entre as nações possa gerar uma cooperação mais simpática, é difícil conseguir um espírito de cooperação verdadeira enquanto as pessoas permanecerem indiferentes aos sentimentos e felicidade dos outros. Quando as pessoas são motivadas principalmente pela ganância e inveja, não é possível para elas vivam em harmonia. Uma abordagem espiritual pode não resolver todos os problemas políticos que foram causados ​​pela abordagem autocentrada atual, mas, a longo prazo, irá superar a própria base dos problemas que enfrentamos hoje.

Por outro lado, se a humanidade continuar a se aproximar dos seus problemas considerando apenas expediente temporário, as gerações futuras terão que enfrentar enormes dificuldades. A população mundial está aumentando e os nossos recursos estão sendo rapidamente esgotados. Olhe para as árvores, por exemplo. Ninguém sabe exatamente quais os efeitos adversos que terá o desmatamento sobre o clima, o solo e a ecologia global como um todo. Estamos enfrentando estes problemas porque as pessoas estão se concentrando apenas em seus interesses egoístas e de resultados imediatos, sem pensar em toda a família humana. Eles não estão pensando na Terra e nos efeitos de longo prazo, que afetarão a vida universal como um todo. Se nós, da atual geração, não pensarmos sobre isso agora, as gerações futuras poderão não ser capazes de lidar com eles.

 

A compaixão como o pilar da paz mundial

De acordo com a psicologia budista, a maioria dos nossos problemas ocorre devido ao nosso desejo apaixonado e apego às coisas que entendemos erroneamente como algo duradouro. A busca pelos objetos do nosso desejo e apego envolve o uso de agressividade e competitividade como meios supostamente eficazes. Esses processos mentais facilmente traduzem-se em ações, criando beligerância como um efeito óbvio. Tais processos têm ocorrido na mente humana desde tempos imemoriais, mas a sua execução tornou-se mais eficaz nos tempos modernos. Então, o que podemos fazer para controlar e regular esses “venenos” – ilusão, cobiça e agressão? Pois são esses venenos que estão por trás de quase todos os problemas do mundo.

Por ter sido educado na tradição budista Mahayana, eu sinto que o amor e a compaixão são o tecido moral da paz mundial. Deixe-me primeiro definir o que quero dizer com compaixão. Quando você tem piedade ou compaixão para com uma pessoa muito pobre, você está mostrando simpatia, pois ele ou ela é pobre. Sua compaixão se baseia em considerações altruístas. Por outro lado, o amor para com sua esposa, seu marido, seus filhos ou um amigo próximo é geralmente baseada no apego. Quando seu apego muda, também muda a sua bondade; ela pode até desaparecer. Isso não é amor verdadeiro. O amor real não é baseado em apego, mas no altruísmo. Neste caso, a sua compaixão permanecerá como uma resposta humana ao sofrimento, enquanto seres continuam a sofrer.

Este tipo de compaixão é a que devemos nos esforçar para cultivar em nós mesmos e devemos a desenvolver a partir de uma quantidade limitada para a ilimitada. A compaixão indiscriminada, espontânea e ilimitada para todos os seres sencientes não é, obviamente, o amor que temos pelos amigos ou pela família, que é misturada com ignorância, desejo e apego. O tipo de amor que deveríamos defender é este amor maior que você pode ter mesmo por alguém que tenha feito mal a você: seu inimigo.

A justificativa para a compaixão é que cada um de nós quer evitar o sofrimento e alcançar a felicidade. Isto, por sua vez, se baseia no sentimento válido de ‘1’, que determina o desejo universal pela felicidade. Na verdade, todos os seres nascem com desejos semelhantes e deveriam ter o mesmo direito de cumpri-los. Se eu me comparar com os outros, que são inúmeros, eu sinto que os outros são mais importantes, porque eu sou apenas uma pessoa, enquanto os outros são muitos. Além disso, a tradição budista tibetana nos ensina a ver todos os seres sencientes como nossas queridas mães e a mostrar a nossa gratidão amando todos eles. Pois, de acordo com a teoria budista, nascemos e renascemos incontáveis vezes, e é possível que cada ser tenha sido nossa mãe em um momento ou outro. Desta forma, todos os seres do universo compartilham uma relação familiar.

Quer você acredite em religião ou não, não há ninguém que não aprecia o amor e a compaixão. Desde o momento do nosso nascimento, estamos sob o cuidado e carinho de nossos pais, mais tarde na vida, ao enfrentar os sofrimentos da doença e da velhice, somos novamente dependentes da bondade dos outros. Se, no início e no final de nossas vidas dependemos da bondade dos outros, por que, então, durante ela não deveríamos agir bondosamente para com os outros?

O desenvolvimento de um coração bondoso (a sensação de proximidade com todos os seres humanos) não envolve a religiosidade que normalmente associamos com a prática religiosa convencional. Não é só para as pessoas que acreditam em religião, mas para todos, independentemente de raça, religião ou filiação política. É para quem considera a si mesmo, acima de tudo, um membro da família humana e que vê as coisas sob essa perspectiva maior e mais ampla. Este é um sentimento poderoso que devemos desenvolver e aplicar. Em vez disso, muitas vezes o negligenciamos, particularmente nos anos de nosso apogeu profissional quando experimentamos uma falsa sensação de segurança.

Quando levamos em conta uma perspectiva de mais ampla, o fato de que todos desejam obter felicidade e evitar o sofrimento, e ter em mente a nossa insignificância relativa em relação a inúmeros outros, podemos concluir que vale a pena compartilhar aquilo que possuímos com os outros. Quando você treina a mente neste tipo de perspectiva, um verdadeiro sentimento de compaixão – um verdadeiro sentimento de amor e respeito pelos outros – se torna possível. A felicidade individual deixa de ser um esforço egoísta consciente, tornando-se um subproduto automático e muito superior de todo o processo de amar e servir aos outros.

Outro resultado do desenvolvimento espiritual, muito útil no dia a dia, é que ele lhe proporciona calma e autocontrole. Nossas vidas estão em constante fluxo, trazendo muitas dificuldades. Quando os confrontados com uma mente calma e clara, os problemas podem ser resolvidos com sucesso. Quando, ao contrário, perdemos o controle de nossas mentes através do ódio, egoísmo, ciúme e raiva, perdemos nosso senso de julgamento. Nossas mentes estão cegas e nesses momentos selvagens qualquer coisa pode acontecer, incluindo a guerra. Assim, a prática da compaixão e sabedoria é útil para todos, especialmente para os responsáveis ​​pela gestão pública em seus países, em cujas mãos se encontram o poder e a oportunidade de criar a estrutura da paz mundial.

 

As religiões mundiais em prol da paz mundial

Os princípios discutidos até agora neste artigo estão de acordo com os ensinamentos éticos de todas as religiões do mundo. Podemos afirmar que todas as grandes religiões do mundo – budismo, cristianismo, confucionismo, hinduísmo, islamismo, jainismo, judaísmo, sikhismo, taoismo, zoroastrismo – têm ideais semelhantes de amor, o mesmo objetivo de beneficiar a humanidade por meio da prática espiritual e o mesmo efeito de fazer seus seguidores se tornarem seres humanos melhores. Todas as religiões ensinam preceitos morais para aperfeiçoar as funções da mente, do corpo e da fala. Todas elas nos ensinam a não mentir, não roubar ou tirar a vida dos outros e assim por diante. O objetivo comum de todos os preceitos morais estabelecidos pelos grandes mestres da humanidade é o altruísmo. Os grandes professores queriam levar seus seguidores para longe dos caminhos dos atos negativos causados ​​pela ignorância e apresentá-los aos caminhos da bondade.

Todas as religiões concordam sobre a necessidade de controlar a mente indisciplinada que abriga o egoísmo e as outras raízes dos problemas e cada uma ensina um caminho que leva a um estado espiritual pacífico, disciplinado, ético e sábio. É nesse sentido que eu acredito que todas as religiões têm essencialmente a mesma mensagem. As diferenças de dogma podem ser atribuída a diferenças de tempo e as circunstâncias, bem como influências culturais, na verdade, não há fim à argumentação escolástica quando consideramos o lado puramente metafísico da religião. No entanto, é muito mais benéfico tentar implementarmos na vida cotidiana os preceitos comuns para o bem que é ensinado por todas as religiões, ao invés de discutir sobre as pequenas diferenças na abordagem.

Há muitas religiões diferentes que trazem conforto e felicidade para a humanidade, da mesma forma que existem tratamentos específicos para doenças diferentes. Pois, todas as religiões se esforçam em sua própria maneira para ajudar os seres vivos a evitarem a miséria e obterem felicidade. E, embora possamos encontrar as causas para preferir certas interpretações das verdades religiosas, há muito mais motivos para a unidade, decorrente do coração humano. Cada religião trabalha em sua própria maneira para diminuir o sofrimento humano e contribuir para a civilização mundial. Não estamos falando aqui de conversão. Por exemplo, não acho que devamos converter outras pessoas ao budismo nem mesmo em promover o budismo. Em vez disso, tento pensar como eu, como budista humanitário posso contribuir para a felicidade humana.

Apesar de apontar as semelhanças fundamentais entre as religiões do mundo, eu não defendo uma determinada religião em detrimento de todas as outras, nem busco uma nova “religião mundial”. Todas as diferentes religiões do mundo são necessárias para enriquecer a experiência humana e a civilização mundial. Nossas mentes humanas, sendo de diferentes calibre e disposição, precisam de diferentes abordagens para a paz e para felicidade. É como comida. Certas pessoas acham o cristianismo mais atraente, outras preferem o budismo porque não há nenhum criador nele e tudo depende de suas próprias ações. Nós podemos argumentar de forma semelhante com outras religiões também. Assim, a questão é clara: a humanidade precisa de todas as religiões do mundo, de acordo com os modos de vida, as diversas necessidades espirituais e as tradições nacionais herdadas por cada ser humano.

É a partir dessa perspectiva que parabenizo os esforços realizados em várias partes do mundo, com o objetivo de gerar um melhor entendimento entre as religiões. A necessidade disso é particularmente urgente neste momento. Se todas as religiões fizerem do aperfeiçoamento da humanidade a sua principal preocupação, então, elas podem facilmente trabalhar juntas e em harmonia pela paz mundial. Entendimento mútuo trará a unidade necessária para todas as religiões trabalharem em conjunto. No entanto, embora este seja realmente um passo importante, devemos lembrar que não há soluções rápidas ou fáceis. Nós não podemos esconder as diferenças doutrinárias que existem entre as várias religiões, nem podemos substituir as religiões existentes por uma nova crença universal. Cada religião faz suas próprias contribuições de maneiras distintas e cada uma à sua maneira é adequada a um determinado grupo de pessoas, pois é assim que eles entendem a vida. O mundo precisa de todas elas.

Existem duas tarefas principais que os praticantes religiosos que estão preocupados com a paz mundial precisam enfrentar. Em primeiro lugar, devemos promover uma melhor compreensão inter-religiosa, de modo a criar um grau viável de unidade entre todas as religiões. Isto pode ser conseguido, em parte, respeitando as crenças de cada um e ao enfatizar a nossa preocupação comum com o bem-estar humano. Em segundo lugar, devemos desenvolver um consenso viável em valores espirituais fundamentais que tocam cada coração humano e aumentam a felicidade humana em geral. Isto significa que devemos enfatizar o denominador comum de todas as religiões do mundo – ideais humanitários. Estas duas etapas nos permitirão agir individualmente e em conjunto para criar as condições espirituais necessárias para a paz mundial.

Nós, praticantes de diferentes religiões, podemos trabalhar juntos pela paz no mundo quando vemos diferentes religiões essencialmente como instrumentos para desenvolver um bom coração – amor e respeito pelos outros, um verdadeiro senso de comunidade. A coisa mais importante é olhar para o propósito da religião e não para os detalhes de sua teologia ou metafísica, o que pode levar a um mero intelectualismo. Eu acredito que todas as grandes religiões do mundo podem contribuir para a paz mundial e trabalhar em conjunto em benefício da humanidade se colocar de lado as diferenças metafísicas sutis, que são de fato os assuntos internos de cada religião.

Apesar da progressiva secularização provocada pela modernização em todo o mundo e apesar das tentativas sistemáticas em algumas partes do mundo em destruir os valores espirituais, a grande maioria da humanidade continua a acreditar em uma ou outra religião. A fé inabalável na religião, evidentemente, mesmo sob sistemas políticos irreligiosos, demonstra claramente o poder da religião no mundo. Esta energia espiritual e poder pode ser usado propositadamente para criar as condições espirituais necessárias para a paz mundial. Os líderes religiosos e humanitários em todo o mundo têm um papel especial a desempenhar neste contexto.

Se seremos capazes de alcançar a paz mundial ou não, o fato é que não temos escolha a não ser trabalhar para esse objetivo. Se nossas mentes forem dominadas pela raiva, perderemos a melhor parte da inteligência humana – sabedoria, a capacidade de decidir entre o certo e o errado. A raiva é um dos problemas mais graves que o mundo enfrenta hoje.

 

O poder individual para moldar as instituições

A raiva desempenha um papel muito importante nos conflitos atuais, como os do Oriente Médio, do Sudeste da Ásia, no problema Norte-Sul, e assim por diante. Estes conflitos surgem a partir de uma incapacidade de compreender a condição humana mutuamente. A resposta não é o desenvolvimento e maior uso de força militar, nem uma corrida armamentista. Nem é puramente política ou unicamente tecnológica. A resposta é basicamente espiritual, no sentido de que o que é necessário é um entendimento sensível da nossa situação humana comum. O ódio e o combate não podem trazer felicidade a alguém, até mesmo para os vencedores das batalhas. Violência sempre produz miséria e, portanto, é essencialmente contraprodutivo. Está na hora, portanto, dos líderes mundiais aprenderem a transcender as diferenças de raça, cultura e ideologia e considerarem uns aos outros através de olhos que veem a condição humana como um todo. Isso beneficiaria os indivíduos, as comunidades, as nações e o mundo em geral.

A maior parte da tensão presente no mundo parece resultar do conflito “bloco do oriente” versus “bloco do ocidente”, que vem acontecendo desde a Segunda Guerra Mundial. Estes dois blocos tendem a descrever e ver uns aos outros em uma maneira totalmente desfavorável. Esta luta contínua e irracional se dá devido a uma falta de afeto mútuo e respeito um pelo outro como seres humanos. Os que se encontram no bloco oriental devem reduzir o seu ódio em relação ao bloco ocidental, porque o bloco ocidental também é composto de seres humanos – homens, mulheres e crianças. Da mesma forma, os do bloco ocidental devem reduzir o seu ódio em direção ao bloco oriental, pois o bloco oriental também é composto de seres humanos. Nesta redução de ódio mútuo, os líderes dos dois blocos têm um poderoso papel a desempenhar. Mas em primeiro lugar, os líderes devem perceber a sua própria condição humana e a dos outros. Sem esta realização básica, pouquíssima redução efetiva de ódio poderá ser alcançado.

Se, por exemplo, o líder dos Estados Unidos da América e o líder da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, de repente se encontrarem no meio de uma ilha deserta, tenho certeza que eles iriam responder um ao outro de forma espontânea, como seres humanos. Mas um muro de desconfiança mútua e incompreensão os separa no momento em que são identificadas como o “Presidente dos EUA” e o “Secretário-geral da URSS”. Um contato mais humano na forma de reuniões informais, sem qualquer compromisso, iria contribuir para uma compreensão mútua. Eles iriam aprender a se relacionar um com o outro como seres humanos e, em seguida, poderia tentar resolver os problemas internacionais com base neste entendimento. Duas partes, especialmente aqueles com um histórico de antagonismo, não podem negociar produtivamente em uma atmosfera de mútua desconfiança e ódio.

Eu sugiro que os líderes mundiais se reúnam uma vez por ano em um lugar bonito, sem qualquer pauta, apenas para se conhecerem uns aos outros como seres humanos. Então, mais tarde, eles poderiam se reunir para discutir problemas comuns e globais. Tenho certeza que muitos outros compartilham o mesmo desejo que tenho, de que os líderes mundiais se reúnam nas conferências em uma atmosfera de respeito mútuo e compreensão da condição humana um do outro.

Para melhorar o contato entre as pessoas no mundo em geral, gostaria de ver um maior incentivo do turismo internacional. Além disso, os meios de comunicação, particularmente nas sociedades democráticas, podem fazer uma contribuição considerável para a paz mundial, dando maior cobertura para assuntos de interesse humano que mostram a unicidade da humanidade. Com a ascensão de algumas grandes potências no cenário internacional, o papel das organizações humanitárias internacionais está sendo ignorada e desprezada. Espero que isso seja corrigido e que todas as organizações internacionais, especialmente a Organização das Nações Unidas, sejam mais ativas e eficazes no sentido de produzir o máximo de benefícios para a humanidade e promover compreensão internacional. Na verdade, será trágico se os poucos membros poderosos continuarem a abusar dos órgãos mundiais, como fazem com a ONU, para seus próprios interesses unilaterais. A ONU deve se tornar o instrumento da paz mundial. Ela deve ser respeitada por todos nós, pois a ONU é a única fonte de esperança para pequenas nações oprimidas e, consequentemente, para o planeta como um todo.

Como todas as nações são economicamente dependentes umas das outras hoje mais do que nunca, a compreensão humana deve ir além das fronteiras nacionais e abraçar a comunidade internacional em geral. Na verdade, a menos que possamos criar uma atmosfera de cooperação genuína, sem ter sido obtido por ameaça ou pelo uso real da força, mas pela compreensão sincera, os problemas do mundo só irão aumentar. Se as pessoas nos países mais pobres são negados a felicidade que eles desejam e merecem, eles serão naturalmente insatisfeitos e causarão problemas para os ricos. Se modelos sociais, culturais e políticas indesejáveis continuarem a ser impostos sobre as pessoas que não a querem, a obtenção da paz mundial é duvidosa. No entanto, se satisfizermos as pessoas no nível do coração, a paz certamente virá.

Em cada nação, deve ser dado aos indivíduos o direito à felicidade e entre as nações deve haver igual preocupação com o bem-estar até mesmo das menores nações. Não estou sugerindo que um sistema seja melhor que o outro e que todos devem adotá-lo. Pelo contrário, uma variedade de sistemas políticos e ideologias é desejável e está de acordo com as várias predisposições dentro da comunidade humana. Esta variedade aumenta a busca incessante da felicidade humana. Assim, cada comunidade deve ser livre para desenvolver seu próprio sistema político e socioeconômico, com base no princípio da autodeterminação.

A obtenção da justiça, da harmonia e da paz dependem de muitos fatores. Devemos pensar neles em termos de benefício humano a longo prazo, em vez de a curto prazo. Eu percebo a grandiosidade da tarefa diante de nós, mas não vejo outra alternativa além da que eu estou propondo – que se baseia na nossa condição humana comum. As nações não têm outra escolha a não ser se preocupar com o bem-estar dos outros, não tanto por causa de sua crença na humanidade, mas porque é do interesse mútuo e de longo prazo de todos os interessados. Uma apreciação dessa nova realidade é indicada pelo aparecimento de organizações econômicas regionais ou continentais, como a Comunidade Econômica Europeia, a Associação de Nações do Sudeste Asiático, e assim por diante. Espero que mais dessas organizações transnacionais sejam formadas, principalmente em regiões onde o desenvolvimento econômico e estabilidade regional parecem escassos.

Nas condições atuais, há definitivamente uma necessidade crescente de compreensão sobre a condição humana e de um sentimento de responsabilidade universal. Para que possamos atingir tais ideias, devemos gerar um coração bom e gentil, pois, sem isso, não podemos alcançar a felicidade universal e nem a paz mundial duradoura. Não é possível criarmos a paz no papel. Ao defender a responsabilidade universal e a fraternidade universal, o fato é que a humanidade está organizada em entidades separadas, dentro de seus próprios países. Assim, em um sentido realista, eu sinto que são essas sociedades que devem agir como os tijolos de construção da paz mundial. Várias tentativas foram realizadas no passado para se criar sociedades mais justas e igualitárias. Instituições foram criadas com estatutos nobres para combater as forças antissociais. Infelizmente, essas ideias foram traídas  pelo egoísmo. Hoje mais do que nunca, assistimos como a ética e os princípios nobres são obscurecidos pela sombra do autointeresse, particularmente na esfera política. Há uma escola de pensamento que nos adverte a evitar a política completamente, pois a política se tornou sinônimo de amoralidade. Política desprovida de ética não promove o bem-estar humano, a vida sem moralidade reduz seres humanos ao nível dos animais. No entanto, a política não é axiomaticamente “suja”. Ao contrário, os instrumentos de nossa cultura política têm distorcido os altos ideais e conceitos nobres que deveriam fomentar o bem-estar humano. Naturalmente, as pessoas espiritualizadas expressam sua preocupação com líderes religiosos que “mexem” com política, uma vez que temem a contaminação da religião por políticas sujas.

Eu questiono a suposição popular de que a religião e a ética não têm lugar na política e que as pessoas religiosas devem se isolar como eremitas. Tal ponto de vista da religião é demasiado unilateral, que carece de uma perspectiva adequada sobre a relação do indivíduo com a sociedade e o papel da religião em nossas vidas. A ética é tão crucial para um político quanto é para um praticante religioso. Consequências perigosas surgirão quando os políticos e governantes esquecem dos princípios morais. Quer acreditemos em Deus ou no carma, a ética é o fundamento de todas as religiões.

Tais qualidades humanas como moralidade, compaixão, decência, sabedoria e assim por diante, têm sido os fundamentos de todas as civilizações. Estas qualidades devem ser cultivadas e sustentadas através da educação moral sistemática em um ambiente social propício para que um mundo mais humano possa surgir. As qualidades necessárias para criar um mundo como esse deve ser incutida desde o início, desde a infância. Nós não podemos esperar pela próxima geração para fazer essa mudança, a atual geração precisa fazer uma renovação dos valores humanos básicos. Se há alguma esperança, ela está nas gerações futuras, mas ela somente ocorrerá se instituirmos uma grande mudança em escala mundial em nosso atual sistema educacional. Precisamos de uma revolução em nosso compromisso e na prática de valores humanitários universais.

Não basta fazermos discursos calorosos para parar a degeneração moral; temos de fazer algo para alcançar isso. Uma vez que os governos atuais não assumem tais responsabilidades “religiosas”, os líderes humanitários e religiosos devem fortalecer as existentes organizações cívicas, sociais, culturais, educacionais e religiosas para reavivar os valores humanos e espirituais. Sempre que necessário, devemos criar novas organizações para alcançar essas metas. Somente assim podemos ter esperanças de criar uma base mais estável para a paz mundial.

Vivendo em sociedade, deveríamos compartilhar os sofrimentos dos nossos concidadãos e praticar compaixão e tolerância não só para com os nossos entes queridos, mas também para os nossos inimigos. Esta é a prova de nossa força moral. Temos de dar o exemplo através de nossa própria prática, pois não podemos convencer os outros do valor da religião por meras palavras. Devemos viver de acordo com os mesmos altos padrões de integridade e sacrifício que exigimos dos outros. O objetivo final de todas as religiões é servir e beneficiar a humanidade. É por isso que é tão importante que a religião sempre seja utilizada para propagar a felicidade e a paz entre todos os seres e não apenas converter as pessoas.

Além disso, em se tratando de religião, não existem fronteiras nacionais. A religião pode e deve ser usada por qualquer pessoa ou pessoas que a considerarem benéfica. O que é importante para cada um é escolher a religião que é mais adequada para si. Mas, adotar uma religião em particular não implica na rejeição de outra religião ou da própria comunidade. Na verdade, é importante que aqueles que adotem uma religião não se excluam de sua própria sociedade. Os mesmos devem continuar a viver dentro de sua própria comunidade e em harmonia com seus membros. Ao escapar do convívio de sua própria comunidade, você não conseguirá beneficiar os outros, enquanto que beneficiar os outros é realmente o objetivo básico da religião.

Neste sentido, há duas coisas importantes para se ter em mente: o autoexame e a autocorreção. Devemos verificar constantemente a nossa atitude para com os outros, examinando cuidadosamente a nós mesmos e devemos nos corrigir imediatamente quando descobrimos que estamos errados.

Finalmente, algumas palavras sobre o progresso material. Tenho ouvido muita reclamação contra o progresso material vindo dos estudantes ocidentais, e ainda assim, paradoxalmente, esse tem sido o  grande orgulho do mundo ocidental. Não vejo nada de errado com o progresso material em si, desde que as pessoas sempre tenham precedência. Eu sou firmemente convicto de que, a fim de resolver os problemas humanos em todas as suas dimensões, é preciso combinar e harmonizar o desenvolvimento econômico com o crescimento espiritual.

No entanto, devemos conhecer suas limitações. Embora o conhecimento materialista, como a ciência e a tecnologia, tenha contribuído enormemente para o bem-estar humano, ele não é capaz de criar a felicidade duradoura. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde o desenvolvimento tecnológico é, talvez, mais avançado do que em qualquer outro país, ainda há uma grande quantidade de sofrimento mental. Isso ocorre porque o conhecimento materialista só pode fornecer um tipo de felicidade que é dependente das condições físicas. Ele não pode fornecer a felicidade que brota de desenvolvimento interior e que é independente de fatores externos.

Para a renovação dos valores humanos e obtenção de felicidade duradoura, devemos olhar para o patrimônio humano comum a todas as nações em todo o mundo. Que este artigo sirva como um lembrete urgente para que não esqueçamos dos valores humanos que unem a todos nós como uma única família neste planeta.

Eu escrevi as linhas acima
Para expressar o meu constante sentimento.
Sempre que encontro até mesmo um “estrangeiro”,
Tenho sempre a mesma sensação:
“Eu estou conhecendo um outro membro da família humana.”
Esta atitude tem aprofundado
Meu carinho e respeito por todos os seres.
Que este desejo natural seja
Minha pequena contribuição para a paz mundial.
Rezo para uma mais amigável, mais carinhosa e mais compreensiva
Família humana neste planeta.
Para todos os que não gostam de sofrimento,
E para os que valorizam a felicidade duradoura –
Este é o meu sincero apelo.

*Traduzido por Fernando Schneider (2013).

Texto original: https://www.dalailama.com/messages/world-peace/a-human-approach-to-world-peace/

 

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Uma Colaboração entre Ciência e Religião

 

14 de janeiro de 2003.

Por Sua Santidade Tenzin Gyatso, o 14° Dalai Lama (*).

Vivemos em tempos em que emoções destrutivas como a raiva, o medo e o ódio estão provocando problemas devastadores em todo o mundo. Enquanto notícias diárias nos relembram do poder destrutivo de tais emoções, a pergunta que devemos nos fazer é: o que podemos fazer para superá-las?

É claro que essas emoções perturbadoras sempre fizeram parte da condição humana – a humanidade convive com elas por milhares de anos. Todavia, acredito que temos uma valiosa oportunidade de avançarmos na forma com que lidamos com essas emoções, através de uma colaboração entre religião e ciência.

Com isso em mente, desde 1987, tenho me envolvido em uma série de diálogos constantes com grupos de cientistas. Organizadas pelo Instituto Mind & Life, as pesquisas abordam temas que vão desde a física quântica e a cosmologia, até a compaixão e as emoções destrutivas. Constatei que, embora as descobertas científicas ofereçam uma compreensão mais profunda desses campos do conhecimento, tal como a cosmologia, as explicações budistas às vezes podem oferecer aos cientistas uma nova maneira de olhar para o seu próprio campo de estudos.

Nosso diálogo tem proporcionado benefícios não só para a ciência, mas também para a religião. Embora os tibetanos tenham valiosos conhecimentos sobre o mundo interior, estamos materialmente atrasados, em parte, devido à falta de conhecimento científico. Os ensinamentos budistas enfatizam a importância da compreensão da realidade. Portanto, devemos estar atentos ao que os cientistas da atualidade têm, de fato descoberto, através da experimentação e da mensuração das coisas que provaram ser realidade.

No início desses diálogos, havia pouquíssimos dos nossos, do lado budista, primeiramente apenas eu e mais dois tradutores. Mas, recentemente começamos a introduzir os estudos científicos modernos em nossos mosteiros e em nosso último diálogo sobre ciência, estavam presentes mais ou menos vinte monges tibetanos. Os objetivos do diálogo são divididos em dois níveis. Um deles é o nível acadêmico, para a expansão do conhecimento. A ciência, de um modo geral, tem sido uma ferramenta extraordinária para a compreensão do mundo material, promovendo grande progresso em nossas vidas, mas, é claro, há ainda muito a ser explorado. Contudo, a ciência moderna não parece ser tão avançada em relação às experiências internas.

Em contraste, o budismo, uma antiga filosofia indiana, aborda uma profunda investigação sobre o funcionamento da mente. Ao longo dos séculos, muitas pessoas realizaram o que podemos chamar de experimentos nesse campo e tiveram experiências significativas, até mesmo extraordinárias, como resultado de práticas baseadas em seu conhecimento. Portanto, mais discussão e estudo conjunto entre cientistas e estudiosos budistas, no nível acadêmico, poderiam ser úteis para a expansão do conhecimento humano.

Em outro nível, se a humanidade quiser sobreviver, a felicidade e a paz interior são cruciais. Caso contrário, a vida de nossos filhos e netos será, provavelmente, infeliz, desesperada e curta. A tragédia de 11 de setembro de 2001 demonstrou que a tecnologia moderna e a inteligência humana, motivadas pelo ódio, podem levar à imensa destruição. O desenvolvimento material certamente contribui para a felicidade e – até certo ponto – para uma vida confortável. Mas isso não é suficiente. Para alcançar um nível mais profundo de felicidade não podemos negligenciar o nosso desenvolvimento interior. Sinto, por exemplo, que nosso senso de valores humanos fundamentais não manteve o mesmo ritmo da poderosa evolução de nossas capacidades materiais.

Por essa razão, tenho incentivado cientistas a examinarem praticantes espirituais tibetanos de nível avançado, para ver quais os efeitos que a prática espiritual pode ter, de modo que beneficiem os outros, fora do contexto religioso. Uma das maneiras seria ter a ajuda de cientistas na tentativa de tornar o funcionamento desses métodos internos mais claros. O ponto mais importante aqui é aumentar a nossa compreensão do mundo da mente ou da consciência e das nossas emoções.

Os experimentos que já foram realizados mostram que alguns praticantes podem alcançar um estado de paz interior, mesmo quando passam por situações perturbadoras. Os resultados mostram que essas pessoas são mais felizes, menos suscetíveis às emoções destrutivas e mais em sintonia com os sentimentos dos outros. Esses métodos não são apenas úteis, eles também são baratos: você não precisa comprar nada nem produzir algo em uma fábrica. Você não precisa de drogas ou injeções.

A próxima pergunta é: como podemos compartilhar esses resultados benéficos com as pessoas além das que são budistas? Isso não diz respeito apenas ao budismo ou qualquer outra tradição religiosa – é simplesmente uma questão de tentar deixar claro o potencial da mente humana. Todos, ricos ou pobres, educados ou não, temos o potencial de levar uma vida significativa e pacífica. Nós precisamos explorar ao máximo como isso pode ser atingido.

No curso dessa exploração, torna-se óbvio que a maioria das perturbações é estimulada não por causas externas, mas por eventos internos e com o surgimento de emoções perturbadoras. O melhor antídoto para essas fontes de perturbação acontecerá através do reforço da nossa capacidade de lidar com essas emoções. Eventualmente, precisamos desenvolver uma consciência que fornece as maneiras e os meios de superarmos, nós mesmos, as emoções negativas ou perturbadoras.

Os métodos espirituais estão disponíveis, mas precisamos fazer com que eles sejam plausíveis para a massa, que nem sempre possui uma inclinação para a espiritualidade. Somente se fizermos isso é que esses métodos terão um efeito mais amplo. Isso é importante porque a ciência, a tecnologia e o desenvolvimento material não conseguem resolver todos os nossos problemas. Precisamos combinar o nosso desenvolvimento material juntamente com o desenvolvimento interior desses valores humanos, tais como a compaixão, a tolerância, o perdão, o contentamento e a autodisciplina.

*Traduzido por Fernando Schneider (2013).

Texto original: https://www.dalailama.com/messages/buddhism/science-and-religion/

 

***Possam todos os seres se beneficiar.***

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