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Pergunta e Resposta

PERGUNTA: “Despertar” significa que tudo aquilo que vemos, ouvimos e saboreamos irá desaparecer?

RESPOSTA: Quando despertamos para nossa verdadeira natureza, o mundo dos fenômenos como o conhecemos não desaparece, mas nossas reações a ele se modificarão e, na mesma proporção, nosso sofrimento diminuirá. Se, em meio a um sonho aterrorizante, de repente, percebermos que estamos sonhando, apesar de o sonho necessariamente não desaparecer, o medo desaparecerá. Somos impotentes quando nos deparamos com nossas esperanças e medos, gostos e desgostos e, porque acreditamos que tudo isso é verdadeiro, somos subjugados por toda sorte de eventos. Se percebermos que o que quer que surja é ilusório, não lhe daremos validade, e aquilo não terá o mesmo poder sobre nós. Em consequência, não experimentamos tanto sofrimento.

Em vez de ficarmos presos em nossas experiências, que são como um sonho, sejam elas felizes ou tristes, precisamos enxergar além de seu caráter impermanente e ver sua essência. Conhecer essa essência é o chamado “grande conhecimento”; conhecer apenas a realidade comum e a solidez aparente das coisas é o chamado “conhecimento comum”. A diferença entre eles é como a diferença entre os dois caminhos: o caminho do sonho – de sofrimento incessante – e o grande caminho da realização. O grande conhecimento é a base para transformarmos experiência comum em realização da verdade absoluta.

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”, cap. 4.

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Fechando a Porta da Desvirtude

A mente é como um campo fértil – coisas de todos os tipos podem crescer nela. Quando plantamos uma semente – um ato, uma palavra ou um pensamento – em um dado momento será produzido um fruto que irá amadurecer e cair na terra, perpetuando e incrementando aquela mesma espécie. Momento a momento, com nosso corpo, fala e mente, plantamos sementes potentes de causalidade. Quando as condições adequadas para o amadurecimento do nosso carma se reúnem, teremos de lidar com as consequências daquilo que plantamos.

Embora sejamos responsáveis por aquilo que semeamos, esquecemos que lançamos aquelas sementes e, quando amadurecem, damos crédito ou culpamos pessoas ou coisas externas pelo acontecido. Somos como uma ave pousada sobre uma rocha, que consegue ver sua sombra, mas que, quando voa, esquece-se de que a sombra existe. A cada vez que pousa, a ave pensa que encontrou uma sombra completamente nova. No momento, pensamos, falamos ou agimos. Mas perdemos de vista o fato de que cada pensamento, palavra ou ação produzirá um resultado. Quando o fruto finalmente amadurece, pensamos: “Por que isto aconteceu comigo? Não fiz nada para merecer isto”.

(…)

Para encontrarmos a liberação do samsara, precisamos trabalhar no nível das causas, não no nível dos resultados – o prazer e a dor que aparecem como consequência do nosso comportamento. Para fazer isso, precisamos purificar nossos erros passados e modificar a mente que planta as sementes do sofrimento. Precisamos purificar os venenos mentais que perpetuam o carma infindável. Esse processo é chamado de “fechar a porta da desvirtude”, ou seja, evitar consequências cármicas tomando medidas preventivas, não dando mais vazão às faltas da mente por meio das ações.

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”, cap. 10.