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A história da prática de Tara Vermelha por Lama Tsering Everest

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Suas certezas são totalmente subjetivas – já pensou nisso?

Por Lama Tsering Everest

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1 de novembro de 2015

O que é ter sabedoria?

Vamos usar o exemplo de uma criança que tem um amigo imaginário: sabemos que esse amigo não existe, apesar de precisar um lugar à mesa, ser incluído e ter atenção. Agimos de forma generosa, sendo simpáticos e bem-humorados em relação a ele. Sabemos que a verdade desse amigo é uma verdade incidental à idade daquela criança. Assim que ela ficar um pouco mais velha, vai saber que aquele amigo era apenas sua imaginação.

Por enquanto, é difícil para aquela criança compreender que seu amigo é, na verdade, sua mente e não alguém real. Mas nós vamos tentar guiá-la, ajudando-a a crescer e a compreender, aos poucos, a diferença entre o que é verdadeiro e o que é apenas a experiência de sua mente. É essa a tarefa dos grandes mestres em relação a nós. Colocamo-nos sob orientação deles para que nos apresentem à nossa mente e para que possamos compreender a diferença entre a realidade e o que achamos ser a realidade. Nossa percepção da realidade é subjetiva, baseada no “eu” que observa. Somos sujeitos às limitações da percepção que temos sobre nossa vida. E isso não significa, de maneira alguma, que a vida seja limitada. Significa que nosso poder de detectar a vida é que está limitado. Como a criança que não entende que seu amigo não é real.

Sabedoria é ter uma experiência direta da nossa verdadeira natureza, ilimitada, com o uso da Meditação. Atualmente, a maioria de nós está carente de sabedoria. O mundo, como um todo, não funciona a partir da sabedoria. O mundo funciona a partir do ego, do desejo e da raiva –apesar da sabedoria estar sempre presente, e nunca ter se ausentado.

Este é o motivo pelo qual temos que ouvir os ensinamentos e nos aproximar de quem possui sabedoria: para que possamos aprender sobre sabedoria, praticar Meditação sobre sabedoria e, assim, expor nossa sabedoria.

Precisamos expô-la para que possamos ser sabedoria para os demais –para que eles também possam alcançar a realização da verdadeira natureza da mente.

Por não termos essa compreensão total da realidade é que os mestres, os budas e os detentores da linhagem nos ensinam. E a primeira sabedoria que expõem é que a vida é sofrimento. Podemos já ter ouvido isso antes, mas realmente permitir que isso faça parte de nossa compreensão e aplicar essa idéia em nossa vida é uma coisa completamente diferente.

Ao assistir o noticiário da TV, você vê rapidamente que a vida é sofrimento. Há alguns momentos de felicidade e há grandes dificuldades: doença, envelhecimento e morte. A felicidade, quando se apresenta, é muito bem-vinda, é claro, mas não é passível de ser mantida –é impermanente. Em nossa experiência de querer manter os acontecimentos impermanentes do mundo, como a felicidade, por exemplo, nós sofremos um bocado. Só o que queremos é ser felizes e ficamos frustrados por não conseguirmos viver em constante felicidade.

Para que meditemos, é preciso de informação. Ouvir os ensinamentos e contemplá-los. Esses ensinamentos poderão expor muitas idéias e conceitos que você pode nunca ter nem ao menos considerado, como por exemplo:

  • Você já considerou que sua percepção da vida pode ser totalmente subjetiva?
  • Como você espera entender alguma coisa sobre uma outra pessoa, a não ser aquilo que você é capaz de entender?

E mesmo assim, nós julgamos as pessoas todos os dias –as pessoas de quem gostamos e as que não gostamos. E nem percebemos que tudo é a percepção de nossa mente sobre a outra pessoa. É nossa aprovação ou desaprovação de acordo com o que nossa mente consegue compreender. Não tem nada de objetivo nesse julgamento. Conseguimos ver a realidade apenas de uma maneira subjetiva e nem nos damos conta.
Estamos presos na percepção de nossa mente. Nós só vemos aquilo que conseguimos ver –e não o que é verdade.

Outro exemplo: meu cachorro, que se chama Pao Wo, vê todas as pessoas como inimigas. Se você tentar afagá-lo, ele vai mordê-lo. Essa é a percepção que tem da realidade e ele está preso nela. Ele pode se acostumar com algumas pessoas, mas, em um dia ruim, vai mordê-las também, porque repentinamente as vê como inimigas. Essa é a percepção dele. Esse é o carma dele.

Nós somos como o Pao Wo. Somos um pouco mais sofisticados, é verdade, mas também não entendemos a verdade. Estamos presos em nosso carma.

Então temos que ouvir os ensinamentos sobre a verdade. E esses ensinamentos devem ser aplicados à nossa própria mente. Como poderíamos compreender a realidade se não compreendemos nem a nossa própria mente?
Você aplica, então, esses ensinamentos à sua própria mente e depois os contempla: você, diligentemente, põe seu cérebro para funcionar. Ao pensar nos ensinamentos, você terá dúvidas, e ao perguntar ao professor e obter as respostas, você poderá compreender a realidade de uma forma mais ampla.

Fonte: Odasl Ling.

Meditação: colocando a filosofia budista em ação

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Por Lama Tsering Everest

Há alguns anos, uma aluna brasileira de Chagdud Tulku Rinpoche ficou surpresa ao ouvir de um professor universitário que tudo de ruim que acontecia no mundo era resultado da Religião, e que tudo de bom era resultado da Filosofia. Na época, tivemos muita sorte porque Rinpoche estava no Brasil e pudemos perguntar a ele sobre isso.

“Religião nunca trouxe problema ao mundo”, respondeu Rinpoche. “As pessoas é que trouxeram.” E acrescentou: “As pessoas causam tantos problemas porque têm uma visão corrompida da realidade e geralmente acreditam que o que pensam é mais certo do que o que os outros pensam”.

Rinpoche nos explicou, de forma direta e clara, que Filosofia são as ideias ou a doutrina por trás da Religião. Explicou também que Religião é a implementação dessas ideias na prática, ou seja, o papel da Religião é o de integrar as ideias à vida prática, com uma perspectiva sagrada, com reverência.

A meditação é um dos exemplos de implementação da filosofia budista pela via religiosa –e, para compreendê-la um pouco melhor, temos que avançar passo a passo, já que a filosofia budista é muito profunda (eu mesma a estudo há 25 anos, e me considero apenas uma iniciante –de verdade).

Podemos começar conhecendo as três categorias básicas de caminho, ensinadas por Buda Shakyamuni, para três categorias básicas de pessoas:

  • Caminho da autoliberação (Hinayana): é a primeira categoria, destinada às pessoas que buscam se libertar da ilusão e do sofrimento;
  • Caminho do Grande Veículo (Mahayana): categoria das pessoas que querem se libertar da ilusão e do sofrimento para ajudar os demais;
  • Caminho do Veículo do Diamante (Vajrayana): esse é um braço da segunda categoria, destinado às pessoas capazes e dispostas a usar métodos extraordinários em conjunto com aspirações não-egoístas de ajudar os demais.

Essa terceira categoria é a que praticamos aqui no Odsal Ling. Motivados pela inclusão amorosa dos outros e pela necessidade de ajudar aos demais, ouvimos os ensinamentos, contemplamos os significados e os aplicamos em nós mesmos, a fim de expor as grandes qualidades da nossa mente. Tudo isso com o objetivo de ajudar os outros –tanto de uma forma imediata como de uma forma mais grandiosa e absoluta.

Dentro do Budismo Vajrayana, existem três pontos inter-relacionados que precisam ser muito bem desenvolvidos: a Visão, a Meditação e a Ação. Qualquer um que esteja praticando, precisa estar bem versado na Visão, que é o ponto inicial. A Meditação, o segundo ponto, é o exercício da Visão. E finalmente precisa desenvolver a Ação, que é a implementação prática da Meditação. Em última análise, a Ação é a implementação da Visão.

A fim de pôr esses conceitos em prática corretamente, você precisa cultivar motivação pura. Ter uma motivação pura é requisito básico para ouvir os ensinamentos e entender que, sem ter acesso à natureza da mente iluminada, você e todos os seres ficam impotentes, frágeis e subjugados a seus próprios sofrimentos.
Mente iluminada não é algo que você possa comprar ou que possa fazer. É algo que existe e é verdadeiro: é a natureza absoluta da nossa mente.

Nossas ideias sobre nós mesmos e sobre os outros não são reais: são apenas nossos julgamentos, a partir de nossa falta de real compreensão. Neste mundo que consideramos ser real, agimos e reagimos de acordo com esses julgamentos e perpetuamos mais erros –e este é o motivo pelo qual nós e todos os outros sofremos.

Nesta perspectiva confusa, encontramos justificativas para nossos maus hábitos e ações prejudiciais em relação às outras pessoas. E então criamos carma e, logo, lá estamos nós, como vítimas da dor –e, nem ao menos percebemos, que essa dor foi criada por nós mesmos.

Somos nós quem criamos essa relação de ferir e ser ferido e ficamos com a sensação de termos sido machucados e feridos por alguém, independente e diferente de nós mesmos. Cabe a nós mesmos interromper esse ciclo –e fazemos isso com motivação pura, com compaixão e com a compreensão correta, desenvolvidas com Visão, Meditação e Ação.

Fonte: Odsal Ling.

Pensar não traz iluminação: relaxe sua mente

Por Lama Tsering Everest

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A realidade é algo que, costumeiramente, vai ficando cada vez mais distante de nós, devido aos nossos apegos, desejos e visões distorcidas. Para poder compreender um pouco melhor a realidade da vida e enxergar além das aparências, precisamos contemplar os ensinamentos.

Devemos nos lembrar, no entanto, que apenas compreender racionalmente não é o suficiente. Compreender é impermanente: você pode se esquecer facilmente do que aprendeu ou até mesmo compreender errado.

A compreensão deve, então, ser equilibrada com o relaxamento da mente. Você usa seu intelecto -ouvindo, contemplando, questionando, compreendendo os ensinamentos. E, logo depois, você deixa os pensamentos irem embora. Você abre mão deles, porque eles não são o bastante: eles ainda não são a realidade absoluta da sua mente.

Existem no mundo grandes pensadores, maiores do que eu e você, mas eles não atingiram a iluminação. Pensar não vai trazer iluminação.

Mas se você cultivar a compreensão clara e relaxar sua mente –relaxar toda sua subjetividade e todo seu apego à fachada do eu, e à projeção desse eu como o outro- conseguirá experimentar a natureza não-dividida do estado desperto.

Use métodos para fazer sua contemplação e relaxamento. Algumas vezes, você pode, depois de contemplar, gritar ou se mexer, fazer um mudra, ou apenas não fazer nada.

Então você deve contemplar e relaxar novamente, várias vezes. É como uma gangorra, que varia de um lado para o outro.

Na verdade, o que importa é o ponto focal, o ponto de equilíbrio dessa gangorra. Se você pensar na gangorra, por exemplo, vai perceber que ela nem existe: é apenas uma tábua apoiada em uma base.

Ao atingirmos a compreensão desse ponto focal, de equilíbrio, percebemos que contemplação e relaxamento são a mesma coisa. Intelecto e essência não são diferentes. Quando conseguimos atingir esse nível, podemos considerar que nossa meditação está indo muito bem.

E então, quando conseguimos absorver a realidade, é hora de praticar a grande quebra de paradigma que o Budismo Vajrayana propõe: nos voltamos para o sofrimento das outras pessoas. É um exercício mental usado para cultivar a compaixão –que significa querer que o sofrimento do outro cesse.

Este é um processo tremendo nesse caminho para realizar a natureza iluminada da mente. Basicamente, o que ocorre é que colocamos mais ênfase nos problemas dos outros do que nos nossos, de modo a ajudá-los de maneira amorosa e compassiva.

E relaxamos nossa mente, aceitando que não temos todas as respostas para suprir as necessidades dos outros. E, então, nos voltamos para os budas e rezamos.

Rezar é um processo interessante que fazemos com nossa mente. Não pense que estamos rezando para alguém separado de nós mesmos, alguém no céu, sentado no trono, envolto por nuvens. No caso do Budismo, rezar significa voltar a nossa mente em direção à perfeição, à essência, à não-limitação, ao amor e compaixão indivisíveis e estado desperto que é sabedoria –e que sempre esteve presente.

Rinpoche comparava a oração ao sol: o sol brilha, não importa o que aconteça. Se você vive no fundo de um poço, você terá pouca luz e poderá ficar bravo porque o sol brilha pouco para você. Mas isso não é culpa do sol. Ele brilha igualmente para todos. Nós é que vivemos dentro do poço. Rezar é sair de dentro do poço e ficar exposto à luz do sol, que está lá, brilhando. O que muda é que, ao rezar, você se expõe a esse brilho, você fica mais disponível para receber os raios desse sol.

A perfeição não tem preconceitos. Não é algo que você tem que ganhar, que merecer ou conquistar. É algo que você tem que notar.

Fonte: Odsal Ling.