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A preparação para a morte

“A morte nos espera, quer estejamos preparados ou não, quer pensemos nela ou não. Para muitos de nós a ideia de morrer traz tamanho mal-estar que preferimos evitá-la por completo. Podemos até nos enganar, tentando nos convencer de que não temos medo da morte, de que ela não é nada demais. Entretanto, aqueles que morrem sem preparados são assaltados por um medo tremendo, um medo que não se compara a nada que já tenhamos vivenciado. A falta de controle sobre o corpo e a perda de tudo que nos é familiar provocam não só pavor, mas também desorientação e confusão. Algumas pessoas sentem um grande arrependimento, uma sensação de que suas vidas, todos os seus esforços, foram sem propósito. Elas sentem uma tristeza enorme ao olhar para trás e descobrir que deixaram de perceber o sentido principal de toda essa experiência.

Precisamos nos preparar para o momento em que a mente e o corpo irão se separar, desenvolvendo hábitos fortes de prática espiritual que não se evaporem diante da morte. Há um ditado tibetano que diz: “Quando você já está apertado, é tarde demais para construir um banheiro”. Se nos familiarizarmos com o processo do morrer, não seremos pegos de surpresa; não seremos paralisados pelo medo nem distraídos pela confusão. Se desenvolvermos as habilidades meditativas necessárias, a morte poderá ser uma porta para o estado imortal da iluminação, a partir do qual poderemos trazer, sem cessar, benefícios para todos os seres.”

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”, cap. 20.

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“A crença na solidez das experiências produz apego e aversão, os quais, por sua vez, alimentam perpetuamente o fogo do samsara até que a realidade pareça um inferno devorador. Compreender a verdade das nossas experiências é como deixar de pôr lenha na fogueira. As chamas não desaparecem logo, mas, sem combustível, o fogo morre lentamente. Sem apego e aversão, não somos confundidos pela atração e repulsa pelos fenômenos. No espaço claro da mente que há entre o final de um pensamento e o surgimento do próximo – aí, nessa abertura natural – está a sabedoria.”

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”, cap. 23.

A vida é como um piquenique…

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“A vida é como um piquenique em uma tarde de domingo — ela não dura muito tempo. Só olhar o sol, sentir o perfume das flores ou respirar o ar puro já é uma alegria. Mas se tudo o que fazemos é ficar discutindo onde pôr a toalha, quem vai sentar em que canto, quem vai ficar com o peito ou a coxa do frango…, que desperdício! Mais cedo ou mais tarde o tempo fecha, a tarde cai e o piquenique acaba. E tudo o que fizemos foi ficar discutindo e implicando uns com os outros. Pense em tudo que se perdeu.

Você pode estar se perguntando: se tudo é impermanente, se nada dura, como pode alguém viver feliz? É verdade que não podemos, de fato, agarrar ou nos segurar às coisas, mas podemos usar esse conhecimento para olhar a vida de modo diferente, como uma oportunidade muito breve e rara. Se trouxermos à nossa vida a maturidade de saber que tudo é impermanente, vamos ver que nossas experiências serão mais ricas, nossos relacionamentos mais sinceros, e teremos maior apreciação por tudo aquilo que já desfrutamos.

Também seremos mais pacientes. Vamos compreender que, por pior que as coisas possam parecer no momento, as circunstâncias infelizes não podem durar. Teremos a sensação de que seremos capazes de suportá-las até que passem. E com maior paciência seremos mais delicados com as pessoas a nossa volta. Não é tão difícil manifestar um gesto amoroso quando nos damos conta de que talvez nunca mais estaremos com a nossa tia-avó. Por que não deixá-la feliz? Por que não dispor de tempo para ouvir todas aquelas histórias antigas?

Chegar à compreensão da impermanência e ao desejo autêntico de fazer os outros felizes nesta breve oportunidade que temos juntos, constitui o começo da verdadeira prática espiritual. É esse tipo de sinceridade que efetivamente catalisa a transformação em nossa mente e em nosso ser.

Não precisamos raspar a cabeça nem usar vestes especiais. Não precisamos sair de casa nem dormir em uma cama de pedras. A prática espiritual não requer condições austeras — apenas um bom coração e a maturidade de compreender a impermanência. Isso nos fará progredir.”

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”.

Tonglen: Dar e Tomar para si

De início, pode ser difícil pensar em tomar para si o sofrimento de todos ao mesmo tempo. O processo pode parecer devastador ou abstrato demais. Em vez disso, comece visualizando um ou dois seres, cujo sofrimento seja particularmente comovente para você, por quem seja fácil sentir compaixão. Contemple o sofrimento deles e coloque-se naquela situação, imaginando o que é passar por aquilo. Quando a compaixão surgir, com o desejo fervoroso de aliviar o sofrimento e assegurar a felicidade deles, faça a seguinte meditação:

Siga o ritmo natural da respiração. Visualize que, quando você inspira pelo nariz, toma para si todas as causas e condições do sofrimento daqueles seres na forma de uma luz mortiça e escura. Imagine que eles se libertam completamente de seu penar. A cada expiração, visualize que você está enviando, e eles estão recebendo, na forma de uma luz pura e radiante, todas as suas qualidades positivas e amorosas, e todas as fontes concebíveis de felicidade duradoura.

Repita a meditação, dessa vez visualizando uma ou duas pessoas pelas quais você sinta intensa raiva ou aversão. Expanda a visualização para incluir todas as pessoas por quem você sente isso. Conforme sua meditação se aprofunda e seu coração se abre, aumente aos poucos o âmbito de sua visualização, incluindo grupos maiores de pessoas, até que seu amor e compaixão abracem todos os seres por toda a existência.

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Para Abrir o Coração”, cap. 6, Ed. Makara.

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Fonte da imagem: https://teenbuddha.com/2013/03/03/what-is-compassion/

 

A fonte de todas as dificuldades e conflitos está na mente. Portanto, a solução de todas as dificuldades e conflitos está na transformação da mente. Para isso, praticamos a meditação.

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Para Abrir o Coração”, Ed. Makara.

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Imagem extraída do site Maryworks.

Tentamos viver negando a morte

A morte e o morrer é um tema que evoca emoções tão profundas e perturbadoras que geralmente tentamos viver negando a morte. Entretanto, podemos morrer amanhã, completamente despreparados e impotentes. O momento da morte é incerto, mas a verdade da morte não. Todos os que nasceram certamente morrerão.

As pessoas frequentemente cometem o erro de banalizar a morte e pensam: “Ah, bem, a morte acontece para todos. Não é um grande problema, é natural. Vou estar bem.”
Essa é uma boa teoria até que estejamos morrendo. Então experiência e teoria se diferenciam. Então nos tornamos impotentes e tudo que nos é familiar se perde. Somos esmagados por uma grande turbulência de medo, desorientação e confusão. Por esta razão é essencial nos prepararmos com antecedência e bem para o momento em que a mente e o corpo se separam.

Existem muitos métodos, extraordinários e comuns, para nos prepararmos para a transformação da morte. O mais grandioso deles resulta em iluminação durante a vida. Na iluminação, a morte não tem relevância para o nosso estado de ser. A realização da iluminação é imortal, mas requer uma prática perfeita de meditação.

Se a iluminação imortal não for alcançada nesta vida, a própria transição da morte oferece outra oportunidade suprema para podermos alcançá-la. Mas, mais uma vez, realizar o potencial dessa oportunidade depende de termos dominado certas habilidades meditativas.

A iluminação é a consecução mais elevada da transição da morte, mas não é a única. Se a realização meditativa for incompleta mas tivermos desenvolvido o poder da oração, poderá haver liberação para um ambiente de perfeita bem-aventurança, livre de sofrimento, através da invocação das bênçãos dos seres de sabedoria iluminados. (p. 1-2)

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Vida e Morte no Budismo Tibetano”.

Pergunta e Resposta

PERGUNTA: “Despertar” significa que tudo aquilo que vemos, ouvimos e saboreamos irá desaparecer?

RESPOSTA: Quando despertamos para nossa verdadeira natureza, o mundo dos fenômenos como o conhecemos não desaparece, mas nossas reações a ele se modificarão e, na mesma proporção, nosso sofrimento diminuirá. Se, em meio a um sonho aterrorizante, de repente, percebermos que estamos sonhando, apesar de o sonho necessariamente não desaparecer, o medo desaparecerá. Somos impotentes quando nos deparamos com nossas esperanças e medos, gostos e desgostos e, porque acreditamos que tudo isso é verdadeiro, somos subjugados por toda sorte de eventos. Se percebermos que o que quer que surja é ilusório, não lhe daremos validade, e aquilo não terá o mesmo poder sobre nós. Em consequência, não experimentamos tanto sofrimento.

Em vez de ficarmos presos em nossas experiências, que são como um sonho, sejam elas felizes ou tristes, precisamos enxergar além de seu caráter impermanente e ver sua essência. Conhecer essa essência é o chamado “grande conhecimento”; conhecer apenas a realidade comum e a solidez aparente das coisas é o chamado “conhecimento comum”. A diferença entre eles é como a diferença entre os dois caminhos: o caminho do sonho – de sofrimento incessante – e o grande caminho da realização. O grande conhecimento é a base para transformarmos experiência comum em realização da verdade absoluta.

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”, cap. 4.

Como Lidar com os Venenos da Mente

Em vez de se concentrar no comportamento de todos os outros como quem olha por uma janela, observe sua mente como se olhasse num espelho. Se o que vir for julgamento, orgulho ou preconceito, pratique as meditações sobre a equanimidade. Se encontrar apego egoísta ou avareza, use o antídoto da compaixão. Se enxergar medo ou aversão, use o antídoto do amor e pratique a meditação do dar e tomar para si. Se notar inveja e competitividade, alegre-se com a felicidade dos outros. Se estiver confuso e inseguro sobre o que fazer, interna ou externamente, pergunta-se o que pode trazer benefícios e o que pode trazer danos.

Depois, deixe a mente descansar. Reze para ter clareza, e deixa a mente descansar mais uma vez. Lembre-se que a sua experiência, por mais vívida que possa parecer, é uma miragem, uma manifestação da sua mente. Examine cada aspecto de sua experiência externa e interna até se convencer de que ela é vazia, ilusória, como um sonho. Deixe a mente relaxar.

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Para Abrir o Coração”, Ed. Makara.

Fechando a Porta da Desvirtude

A mente é como um campo fértil – coisas de todos os tipos podem crescer nela. Quando plantamos uma semente – um ato, uma palavra ou um pensamento – em um dado momento será produzido um fruto que irá amadurecer e cair na terra, perpetuando e incrementando aquela mesma espécie. Momento a momento, com nosso corpo, fala e mente, plantamos sementes potentes de causalidade. Quando as condições adequadas para o amadurecimento do nosso carma se reúnem, teremos de lidar com as consequências daquilo que plantamos.

Embora sejamos responsáveis por aquilo que semeamos, esquecemos que lançamos aquelas sementes e, quando amadurecem, damos crédito ou culpamos pessoas ou coisas externas pelo acontecido. Somos como uma ave pousada sobre uma rocha, que consegue ver sua sombra, mas que, quando voa, esquece-se de que a sombra existe. A cada vez que pousa, a ave pensa que encontrou uma sombra completamente nova. No momento, pensamos, falamos ou agimos. Mas perdemos de vista o fato de que cada pensamento, palavra ou ação produzirá um resultado. Quando o fruto finalmente amadurece, pensamos: “Por que isto aconteceu comigo? Não fiz nada para merecer isto”.

(…)

Para encontrarmos a liberação do samsara, precisamos trabalhar no nível das causas, não no nível dos resultados – o prazer e a dor que aparecem como consequência do nosso comportamento. Para fazer isso, precisamos purificar nossos erros passados e modificar a mente que planta as sementes do sofrimento. Precisamos purificar os venenos mentais que perpetuam o carma infindável. Esse processo é chamado de “fechar a porta da desvirtude”, ou seja, evitar consequências cármicas tomando medidas preventivas, não dando mais vazão às faltas da mente por meio das ações.

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”, cap. 10.

“Isto que a vida é – só um momento, um encontro, uma passagem, e então se vai. Se você entende isso, não há tempo para luta. Não há tempo para discussão. Não há tempo para ferirem uns aos outros. Quer você pense em termos de humanidade, nações, comunidades ou indivíduos, não há tempo para nada menos do que verdadeiramente apreciar a breve interação que temos uns com os outros.”

– Chagdud Tulku Rinpoche