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Os 37 Pontos da Prática

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S.Em.ª Chagdud Tulku Rinpoche

Para os inúmeros alunos ligados a mim por aspirações prévias e por carma, eu, o tulku chamado Chagdud, um velho afetuoso, inspirado por meu sentimento de amor por vocês, escrevo esta mensagem e a envio, levada pelo cavalo do vento.

Reflitam sobre estes pontos:

1. Vocês invocam a mente iluminada dos rigdzins
das três linhagens com fé, respeito e anseio?

2. Praticando o Darma sagrado, vocês compreendem
a essência deste estado de liberdade, desta
oportunidade tão difícil de alcançar, tão rara
quanto o florir de uma udumbara?

3. Vocês cortam as amarras do apego a todos os
fenômenos impermanentes e ilusórios desta vida?

4. Já que os resultados de suas ações certas e erradas
são infalíveis, vocês procuram praticar a virtude
e se abster das desvirtudes?

5. Já que não há felicidade duradoura nos ciclos de
existência, a sublime atitude da renúncia surge
em sua mente?

6. Já que ouvir os ensinamentos autênticos dissipa
a ignorância, vocês acendem a lâmpada do Darma
muitas e muitas vezes?

7. Já que a mente não é domada apenas ouvindo os
ensinamentos, vocês cortam a especulação
superficial com a contemplação interior?

8. Para que não fiquem presos pelas elaborações
conceituais da audição e contemplação dos
ensinamentos, vocês praticam seguindo os
pontos-chave das instruções da transmissão direta?

9. Sabendo que falta à existência cíclica qualquer outro
refúgio infalível, vocês põem as três fontes sublimes de
refúgio no topo da cabeça?

10. Para encontrar proteção do sofrimento da existência cíclica,
vocês abandonam os atos que prejudicam os outros, e até
mesmo o pensamento de prejudicá-los?

11. Já que não há um ser senciente nos seis reinos
que não tenha sido sua mãe ou seu pai, vocês
meditam com equanimidade sobre a similaridade
e a bondade de todos eles?

12. O seu coração é tomado pela compaixão quando
veem todos os seres que foram seus pais
continuamente criando as causas do sofrimento
e sendo atormentados pelas suas consequências?

13. Sabendo que a causa da felicidade é a virtude,
vocês se alegram do fundo do coração quando
veem a felicidade dos outros?

14. Tendo em vista que a felicidade efêmera não leva
à satisfação duradoura, vocês geram a aspiração
de alcançar felicidade suprema?

15. Examinando a mente, vocês direcionam o corpo,
a fala e a mente para o caminho da virtude?

16. Com as virtudes e as riquezas reunidas, multiplicadas
pelo poder da visualização, vocês fazem oferendas
para acumular mérito?

17. Com o objetivo de erradicar as amarras do apego
ao eu, vocês oferecem o corpo como um presente
aos quatro convidados

18. Uma vez que a natureza fundamental da oferenda
é livre de elaboração, vocês mantêm a visão que
completa a acumulação de sabedoria?

19. Para se livrar da carga pesada de ações perniciosas,
obscurecimentos, faltas e erros, vocês confessam
usando os quatro poderes como antídotos?

20. Vendo Vajrasatva, a união de estado desperto
e vacuidade, como idêntico à sua verdadeira
natureza, vocês dissolvem os padrões de hábitos
sutis no espaço básico?

21. Vocês sabem que o mais sublime, o mais profundo
caminho espiritual é o caminho veloz da Ioga do Guru?

22. Vocês já ouviram falar que é melhor meditar uma
única vez sobre o lama do que meditar durante
muitas eras sobre centenas de deidades?

23. Vocês conseguem tal clareza na visualização que os
atributos do lama − cores, implementos, ornamentos
e mantos − estão vívida e espontaneamente
aparentes, brilhantes e distintos?

24. Os raios de sol da sua fé e puro samaya brilham sobre
a montanha de neve do lama, que é o
reservatório do degelo das bênçãos?

25. Para purificar os obscurecimentos acumulados pelas
ações interdependentes de corpo, fala e mente, vocês
seguem o caminho profundo de receber as quatro
iniciações inúmeras vezes?

26. Para que as bênçãos da linhagem mente a mente
penetrem na sua mente, vocês unem a mente do
lama com a sua?

27. Vocês já encontraram, face a face, o lama supremo,
a união de estado desperto e vacuidade, como
sua verdadeira natureza, totalmente sem esforço
e expansiva?

28. Vocês percebem todos os fenômenos da
pós-meditação − aparência, sons e pensamentos − como
sendo a forma, a fala e a mente iluminada do lama?

29. Vocês entendem que embora todos os fenômenos
do samsara e do nirvana não sejam a sua mente,
eles não existem dissociados dela?

30. Para cortar a densa teia de conceitos,
vocês passaram pelas preliminares de demolir
a cabana da mente comum?

31. Enquanto se empenham na prática principal,
o encontro direto com a verdadeira natureza
como estado desperto, vocês estabelecem
uma atitude livre de esforço, espaçosa e
completamente sem artifícios?

32. Sem meditar deliberadamente, e ainda assim sem
distrações, vocês estão familiarizados com o mais
majestoso e sublime estado de atenção plena?

33. Embora sua visão possa ser tão elevada quanto o
próprio céu, vocês são cuidadosos ao observar as
escolhas morais em sua conduta?

34. Quanto ao próprio objetivo, alcançado atemporal
e espontaneamente, vocês cortaram os elos da
esperança e do medo?

35. Se sentem que querem sentar, vocês permanecem
na cidadela do ser primordial?

36. Se sentem que precisam ir, vocês seguem
o caminho verdadeiro?

37. Se sentem que precisam agir, vocês
geram um grande benefício para os seres?

Por favor, façam um exame cuidadoso para determinar se esses 37 pontos se aplicam diretamente a vocês, em todos os momentos e de todas as maneiras. Quanto a mim, Chagdud, embora esteja sobrecarregado com o peso da idade, com este velho corpo endurecido, esta árvore curtida pelo tempo que enfrenta tempestades de elementos desequilibrados, não estou ferido. Bandos de demônios e outros seres que de outra forma seriam maléficos servem a mim com respeito. Estabeleci o terreno para que os ensinamentos dos grandes segredos sejam desenvolvidos no futuro.

Se eu me for, estou satisfeito por ficar na presença de meu lama, Padma Jungne. Se ficar, estou satisfeito em nutrir o amor de um lama por seus alunos.

Independentemente do que eu tenha feito, estou feliz, um iogue da ilusão, que lhes envia essa mensagem com uma disposição mental vasta e jubilosa. Por favor, contemplem-na com alegria. Que ela fique indelevelmente gravada na sua mente!

Foto: http://aumagic.blogspot.com.br/2015/06/cancao-do-despertar-chagdud-tulku.html

Fonte: Odsal Ling.

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Oito Versos que Transformam a Mente

(“Lojong Tsigyema“, escrito por Geshe Langri Tangba (1054-1123)

1.

Com a determinação de alcançar
O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes,
Mais preciosos do que uma joia mágica que realiza desejos,
Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.

2.

Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender
A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas,
E, com todo respeito, considerá-las supremas,
Do fundo do meu coração.

3.

Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente
E, sempre que surgir uma emoção negativa,
Pondo em risco a mim mesmo e aos outros,
Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.

4.

Vou prezar os seres que têm natureza perversa
E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos,
Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
Muito difícil de achar.

5.

Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a aceitar a derrota,
E a eles oferecer a vitória.

6.

Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.

7.

Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção,
Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos,
E a tomar sobre mim, em sigilo,
Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.

8.

Vou aprender a manter estas práticas
Isentas das máculas das oito preocupações mundanas,
E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios,
Serei libertado da escravidão do apego.

Extraído do livro “The Union of Bliss and Emptiness”, de autoria do Dalai Lama, com tradução de Manoel Vidal.

As 8 preocupações mundanas são:

1. Querer ser elogiado – 2. Não querer ser criticado;
3. Querer prazer – 4. Não querer dor;
5. Querer ganhar – 6. Não querer perder;
7. Querer ser reconhecido – 8. Não querer ser ignorado.

***

Suas certezas são totalmente subjetivas – já pensou nisso?

Por Lama Tsering Everest

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1 de novembro de 2015

O que é ter sabedoria?

Vamos usar o exemplo de uma criança que tem um amigo imaginário: sabemos que esse amigo não existe, apesar de precisar um lugar à mesa, ser incluído e ter atenção. Agimos de forma generosa, sendo simpáticos e bem-humorados em relação a ele. Sabemos que a verdade desse amigo é uma verdade incidental à idade daquela criança. Assim que ela ficar um pouco mais velha, vai saber que aquele amigo era apenas sua imaginação.

Por enquanto, é difícil para aquela criança compreender que seu amigo é, na verdade, sua mente e não alguém real. Mas nós vamos tentar guiá-la, ajudando-a a crescer e a compreender, aos poucos, a diferença entre o que é verdadeiro e o que é apenas a experiência de sua mente. É essa a tarefa dos grandes mestres em relação a nós. Colocamo-nos sob orientação deles para que nos apresentem à nossa mente e para que possamos compreender a diferença entre a realidade e o que achamos ser a realidade. Nossa percepção da realidade é subjetiva, baseada no “eu” que observa. Somos sujeitos às limitações da percepção que temos sobre nossa vida. E isso não significa, de maneira alguma, que a vida seja limitada. Significa que nosso poder de detectar a vida é que está limitado. Como a criança que não entende que seu amigo não é real.

Sabedoria é ter uma experiência direta da nossa verdadeira natureza, ilimitada, com o uso da Meditação. Atualmente, a maioria de nós está carente de sabedoria. O mundo, como um todo, não funciona a partir da sabedoria. O mundo funciona a partir do ego, do desejo e da raiva –apesar da sabedoria estar sempre presente, e nunca ter se ausentado.

Este é o motivo pelo qual temos que ouvir os ensinamentos e nos aproximar de quem possui sabedoria: para que possamos aprender sobre sabedoria, praticar Meditação sobre sabedoria e, assim, expor nossa sabedoria.

Precisamos expô-la para que possamos ser sabedoria para os demais –para que eles também possam alcançar a realização da verdadeira natureza da mente.

Por não termos essa compreensão total da realidade é que os mestres, os budas e os detentores da linhagem nos ensinam. E a primeira sabedoria que expõem é que a vida é sofrimento. Podemos já ter ouvido isso antes, mas realmente permitir que isso faça parte de nossa compreensão e aplicar essa idéia em nossa vida é uma coisa completamente diferente.

Ao assistir o noticiário da TV, você vê rapidamente que a vida é sofrimento. Há alguns momentos de felicidade e há grandes dificuldades: doença, envelhecimento e morte. A felicidade, quando se apresenta, é muito bem-vinda, é claro, mas não é passível de ser mantida –é impermanente. Em nossa experiência de querer manter os acontecimentos impermanentes do mundo, como a felicidade, por exemplo, nós sofremos um bocado. Só o que queremos é ser felizes e ficamos frustrados por não conseguirmos viver em constante felicidade.

Para que meditemos, é preciso de informação. Ouvir os ensinamentos e contemplá-los. Esses ensinamentos poderão expor muitas idéias e conceitos que você pode nunca ter nem ao menos considerado, como por exemplo:

  • Você já considerou que sua percepção da vida pode ser totalmente subjetiva?
  • Como você espera entender alguma coisa sobre uma outra pessoa, a não ser aquilo que você é capaz de entender?

E mesmo assim, nós julgamos as pessoas todos os dias –as pessoas de quem gostamos e as que não gostamos. E nem percebemos que tudo é a percepção de nossa mente sobre a outra pessoa. É nossa aprovação ou desaprovação de acordo com o que nossa mente consegue compreender. Não tem nada de objetivo nesse julgamento. Conseguimos ver a realidade apenas de uma maneira subjetiva e nem nos damos conta.
Estamos presos na percepção de nossa mente. Nós só vemos aquilo que conseguimos ver –e não o que é verdade.

Outro exemplo: meu cachorro, que se chama Pao Wo, vê todas as pessoas como inimigas. Se você tentar afagá-lo, ele vai mordê-lo. Essa é a percepção que tem da realidade e ele está preso nela. Ele pode se acostumar com algumas pessoas, mas, em um dia ruim, vai mordê-las também, porque repentinamente as vê como inimigas. Essa é a percepção dele. Esse é o carma dele.

Nós somos como o Pao Wo. Somos um pouco mais sofisticados, é verdade, mas também não entendemos a verdade. Estamos presos em nosso carma.

Então temos que ouvir os ensinamentos sobre a verdade. E esses ensinamentos devem ser aplicados à nossa própria mente. Como poderíamos compreender a realidade se não compreendemos nem a nossa própria mente?
Você aplica, então, esses ensinamentos à sua própria mente e depois os contempla: você, diligentemente, põe seu cérebro para funcionar. Ao pensar nos ensinamentos, você terá dúvidas, e ao perguntar ao professor e obter as respostas, você poderá compreender a realidade de uma forma mais ampla.

Fonte: Odasl Ling.

Meditação: colocando a filosofia budista em ação

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Por Lama Tsering Everest

Há alguns anos, uma aluna brasileira de Chagdud Tulku Rinpoche ficou surpresa ao ouvir de um professor universitário que tudo de ruim que acontecia no mundo era resultado da Religião, e que tudo de bom era resultado da Filosofia. Na época, tivemos muita sorte porque Rinpoche estava no Brasil e pudemos perguntar a ele sobre isso.

“Religião nunca trouxe problema ao mundo”, respondeu Rinpoche. “As pessoas é que trouxeram.” E acrescentou: “As pessoas causam tantos problemas porque têm uma visão corrompida da realidade e geralmente acreditam que o que pensam é mais certo do que o que os outros pensam”.

Rinpoche nos explicou, de forma direta e clara, que Filosofia são as ideias ou a doutrina por trás da Religião. Explicou também que Religião é a implementação dessas ideias na prática, ou seja, o papel da Religião é o de integrar as ideias à vida prática, com uma perspectiva sagrada, com reverência.

A meditação é um dos exemplos de implementação da filosofia budista pela via religiosa –e, para compreendê-la um pouco melhor, temos que avançar passo a passo, já que a filosofia budista é muito profunda (eu mesma a estudo há 25 anos, e me considero apenas uma iniciante –de verdade).

Podemos começar conhecendo as três categorias básicas de caminho, ensinadas por Buda Shakyamuni, para três categorias básicas de pessoas:

  • Caminho da autoliberação (Hinayana): é a primeira categoria, destinada às pessoas que buscam se libertar da ilusão e do sofrimento;
  • Caminho do Grande Veículo (Mahayana): categoria das pessoas que querem se libertar da ilusão e do sofrimento para ajudar os demais;
  • Caminho do Veículo do Diamante (Vajrayana): esse é um braço da segunda categoria, destinado às pessoas capazes e dispostas a usar métodos extraordinários em conjunto com aspirações não-egoístas de ajudar os demais.

Essa terceira categoria é a que praticamos aqui no Odsal Ling. Motivados pela inclusão amorosa dos outros e pela necessidade de ajudar aos demais, ouvimos os ensinamentos, contemplamos os significados e os aplicamos em nós mesmos, a fim de expor as grandes qualidades da nossa mente. Tudo isso com o objetivo de ajudar os outros –tanto de uma forma imediata como de uma forma mais grandiosa e absoluta.

Dentro do Budismo Vajrayana, existem três pontos inter-relacionados que precisam ser muito bem desenvolvidos: a Visão, a Meditação e a Ação. Qualquer um que esteja praticando, precisa estar bem versado na Visão, que é o ponto inicial. A Meditação, o segundo ponto, é o exercício da Visão. E finalmente precisa desenvolver a Ação, que é a implementação prática da Meditação. Em última análise, a Ação é a implementação da Visão.

A fim de pôr esses conceitos em prática corretamente, você precisa cultivar motivação pura. Ter uma motivação pura é requisito básico para ouvir os ensinamentos e entender que, sem ter acesso à natureza da mente iluminada, você e todos os seres ficam impotentes, frágeis e subjugados a seus próprios sofrimentos.
Mente iluminada não é algo que você possa comprar ou que possa fazer. É algo que existe e é verdadeiro: é a natureza absoluta da nossa mente.

Nossas ideias sobre nós mesmos e sobre os outros não são reais: são apenas nossos julgamentos, a partir de nossa falta de real compreensão. Neste mundo que consideramos ser real, agimos e reagimos de acordo com esses julgamentos e perpetuamos mais erros –e este é o motivo pelo qual nós e todos os outros sofremos.

Nesta perspectiva confusa, encontramos justificativas para nossos maus hábitos e ações prejudiciais em relação às outras pessoas. E então criamos carma e, logo, lá estamos nós, como vítimas da dor –e, nem ao menos percebemos, que essa dor foi criada por nós mesmos.

Somos nós quem criamos essa relação de ferir e ser ferido e ficamos com a sensação de termos sido machucados e feridos por alguém, independente e diferente de nós mesmos. Cabe a nós mesmos interromper esse ciclo –e fazemos isso com motivação pura, com compaixão e com a compreensão correta, desenvolvidas com Visão, Meditação e Ação.

Fonte: Odsal Ling.

Pensar não traz iluminação: relaxe sua mente

Por Lama Tsering Everest

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A realidade é algo que, costumeiramente, vai ficando cada vez mais distante de nós, devido aos nossos apegos, desejos e visões distorcidas. Para poder compreender um pouco melhor a realidade da vida e enxergar além das aparências, precisamos contemplar os ensinamentos.

Devemos nos lembrar, no entanto, que apenas compreender racionalmente não é o suficiente. Compreender é impermanente: você pode se esquecer facilmente do que aprendeu ou até mesmo compreender errado.

A compreensão deve, então, ser equilibrada com o relaxamento da mente. Você usa seu intelecto -ouvindo, contemplando, questionando, compreendendo os ensinamentos. E, logo depois, você deixa os pensamentos irem embora. Você abre mão deles, porque eles não são o bastante: eles ainda não são a realidade absoluta da sua mente.

Existem no mundo grandes pensadores, maiores do que eu e você, mas eles não atingiram a iluminação. Pensar não vai trazer iluminação.

Mas se você cultivar a compreensão clara e relaxar sua mente –relaxar toda sua subjetividade e todo seu apego à fachada do eu, e à projeção desse eu como o outro- conseguirá experimentar a natureza não-dividida do estado desperto.

Use métodos para fazer sua contemplação e relaxamento. Algumas vezes, você pode, depois de contemplar, gritar ou se mexer, fazer um mudra, ou apenas não fazer nada.

Então você deve contemplar e relaxar novamente, várias vezes. É como uma gangorra, que varia de um lado para o outro.

Na verdade, o que importa é o ponto focal, o ponto de equilíbrio dessa gangorra. Se você pensar na gangorra, por exemplo, vai perceber que ela nem existe: é apenas uma tábua apoiada em uma base.

Ao atingirmos a compreensão desse ponto focal, de equilíbrio, percebemos que contemplação e relaxamento são a mesma coisa. Intelecto e essência não são diferentes. Quando conseguimos atingir esse nível, podemos considerar que nossa meditação está indo muito bem.

E então, quando conseguimos absorver a realidade, é hora de praticar a grande quebra de paradigma que o Budismo Vajrayana propõe: nos voltamos para o sofrimento das outras pessoas. É um exercício mental usado para cultivar a compaixão –que significa querer que o sofrimento do outro cesse.

Este é um processo tremendo nesse caminho para realizar a natureza iluminada da mente. Basicamente, o que ocorre é que colocamos mais ênfase nos problemas dos outros do que nos nossos, de modo a ajudá-los de maneira amorosa e compassiva.

E relaxamos nossa mente, aceitando que não temos todas as respostas para suprir as necessidades dos outros. E, então, nos voltamos para os budas e rezamos.

Rezar é um processo interessante que fazemos com nossa mente. Não pense que estamos rezando para alguém separado de nós mesmos, alguém no céu, sentado no trono, envolto por nuvens. No caso do Budismo, rezar significa voltar a nossa mente em direção à perfeição, à essência, à não-limitação, ao amor e compaixão indivisíveis e estado desperto que é sabedoria –e que sempre esteve presente.

Rinpoche comparava a oração ao sol: o sol brilha, não importa o que aconteça. Se você vive no fundo de um poço, você terá pouca luz e poderá ficar bravo porque o sol brilha pouco para você. Mas isso não é culpa do sol. Ele brilha igualmente para todos. Nós é que vivemos dentro do poço. Rezar é sair de dentro do poço e ficar exposto à luz do sol, que está lá, brilhando. O que muda é que, ao rezar, você se expõe a esse brilho, você fica mais disponível para receber os raios desse sol.

A perfeição não tem preconceitos. Não é algo que você tem que ganhar, que merecer ou conquistar. É algo que você tem que notar.

Fonte: Odsal Ling.

O Poder da Paz

Por S. Ema. Chagdud Tulku Rinpoche

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É meu desejo que o poder espiritual da paz toque cada pessoa na Terra, irradiando de uma paz profunda em nossa mente, atravessando as fronteiras políticas e religiosas, e indo além das fronteiras do ego e da convicção de sermos os donos da verdade. Nossa primeira tarefa como pacifistas é remover os conflitos internos causados pela ignorância, raiva, apego, inveja e orgulho. Com a orientação de um professor espiritual, esta purificação de nossas mentes pode nos ensinar a própria essência de promover a paz. Nós deveríamos buscar uma paz interior tão pura e estável, que seria impossível sermos levados pela raiva diante daqueles que lucram e vivem com a guerra, ou pelo autocentrismo e medo daqueles que nos confrontam com desprezo e ódio.

Uma paciência extraordinária é necessária para que trabalhemos pela paz mundial, e a fonte dessa paciência é a paz interior. Esta paz nos permite ver claramente que a guerra e o sofrimento são os reflexos externos dos venenos da mente. A diferença essencial entre os pacifistas e aqueles que promovem a guerra é que os primeiros têm disciplina e controle sobre a raiva egoísta, o apego, a inveja e o orgulho, ao passo que os outros, devido à ignorância, fazem com que esses venenos se manifestem no mundo. Se você realmente entender isto, nunca se permitirá ser derrotado interna ou externamente.

No Budismo Tibetano, o pavão é o símbolo do bodisatva, o guerreiro desperto que trabalha pela iluminação de todos os seres. É dito que o pavão se alimenta de plantas venenosas, mas transforma o veneno nas cores magníficas de suas penas, sem se intoxicar. Da mesma forma, nós, que defendemos a paz mundial, não podemos nos envenenar com a raiva. Considere com equanimidade os homens poderosos que controlam as máquinas de guerra. Faça o que puder para convencê-los da necessidade da paz, mas esteja constantemente atento ao seu estado mental. Se você ficar com raiva, recue. Se você for capaz de agir sem raiva, talvez seja capaz de transpassar a delusão terrível que perpetua a guerra e seu sofrimento infernal.

Do espaço claro da paz interior, sua compaixão deve se expandir para incluir todos os que estejam envolvidos na guerra; tanto os soldados, cuja intenção é beneficiar, mas que, ao invés disso, causam sofrimento e morte – sendo assim pegos pelo terrível carma de matar – quanto os civis que são feridos, mortos ou forçados a se exilar como refugiados. A verdadeira compaixão brota diante de qualquer tipo de sofrimento, vivido por cada ser, e não é ligada ao certo ou errado, ao apego ou à aversão.

O trabalho pela paz é um caminho espiritual em si mesmo, um meio de desenvolver as qualidades perfeitas da mente e testá-las em situações de necessidade urgente, sofrimento extremo e morte. Não tenha receio de dar-lhe seu tempo, energia e apoio.

O treinamento da mente no cotidiano

Por S. Ema. Chagdud Tulku Rinpoche.

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O budismo é uma tradição espiritual e filosófica que, por quase 3.000 anos, tem capacitado praticantes a eliminar os venenos e hábitos negativos da mente e revelar a sua natureza pura e absoluta.

A natureza básica da mente é como ouro puro, mas a sua pureza inerente não é óbvia, pois está coberta por uma mescla de emoções conflitantes, circunstâncias cármicas, obscurecimentos intelectuais e hábitos. Essas camadas não refinadas, como minério que contém ouro, precisam ser removidas para que a essência pura do nosso ser, o ouro elementar, seja revelada.

Nosso nascimento humano nos oferece a oportunidade de empreender esse processo de purificação e descobrir o amor, a compaixão, a equanimidade e a alegria que surgem espontaneamente da natureza fundamental da mente.

Se examinarmos nossas vidas, veremos que a real insatisfação, angústia e mal-estar que experimentamos não são causados por condições externas, mas pela forma como reagimos interiormente a elas. Não podemos negar que as condições externas difíceis existem, mas precisamos reconhecer que alguém com algum controle sobre os processos internos da mente não vivencia a mesma impotência e sofrimento face às perdas, adversidades e doenças, comparado a uma pessoa cuja mente não foi treinada.

Sei disso por experiência própria, pois meu país, o Tibete, foi perdido para os invasores comunistas, completamente hostis às nossas tradições culturais e espirituais. Muitos grandes mestres morreram de fome, foram torturados e assassinados. Apesar dessas aflições, os comunistas não conseguiram tirar deles a fé, a compaixão ou a paz interior conquistada por meio da realização espiritual. Eles podiam, apenas, dominar a realidade exterior.

O que é significativo?

A maioria de nós, neste país abundante e acolhedor que é o Brasil, não se depara com desafios tão dramáticos. Ao invés disso, somos desafiados a encontrar o que é realmente significativo em nossas vidas tão atarefadas e descobrir o que verdadeiramente é benéfico em nossas interações com a família, com aqueles que amamos, com as pessoas com quem trabalhamos e encontramos.

Sob o ponto de vista budista, nada supera a importância do uso deste nascimento humano precioso para reconhecermos a inabalável natureza absoluta da mente. Esse reconhecimento instiga confiança e poder para enfrentar os acontecimentos efêmeros, tanto internos quanto externos. O caminho para o conhecimento da natureza da mente depende de nossos esforços para beneficiar os demais. Cada vez que colocamos de lado nossas tendências autocentradas para trabalhar pelo bem-estar dos outros, purificamos alguns dos obscurecimentos usuais da mente e aumentamos nosso mérito.

Integrando o caminho espiritual com a vida cotidiana

A purificação e geração de mérito constituem o caminho para a iluminação e podemos encontrar constantes oportunidades para integrá-las às nossas atividades cotidianas. As pessoas, em geral, queixam-se de que não têm tempo para fazer prática formal. Entretanto, qualquer dia pode ser estruturado como uma sessão de meditação prolongada.

• Ao acordarmos pela manhã, nos alegramos com o fato de termos mais um dia para consumar a prática espiritual.

• Estabelecemos uma motivação pura e forte para deixar de prejudicar os outros por meio de nossas ações do corpo, fala e mente e para beneficiá-los como pudermos.

• Durante o dia, verificamos a nossa mente – mesmo quando estamos conversando ou ocupados com atividades – para ver se essas ações advêm de uma intenção pura ou de venenos como o egoísmo, o orgulho, a inveja e a raiva. As ações ou palavras podem ser exatamente as mesmas, mas a motivação positiva ou negativa por trás delas determinará seus resultados cármicos.

• À noite, antes de dormir, refletimos sobre o nosso dia. Se encontrarmos momentos em que fracassamos em seguir nossas boas intenções, podemos purificá-los. Invocamos um ser iluminado como nossa testemunha, reconhecemos nossa falha, geramos remorso por tê-la cometido, fazemos o compromisso de não repeti-la e recebemos a purificação visualizando que luz se irradia de nossa testemunha iluminada, nos permeia e purifica a negatividade.

• Também relembramos os momentos em que criamos mérito com nossas ações, nossa comunicação e intenções positivas. Imaginamos esse mérito se expandindo e formando uma vasta oferenda que se dissolve nas mentes de todos os seres por todo o universo.

Praticantes secretos

Do mesmo modo que uma pessoa, ao acender uma vela, fornece luz para todos que estão no mesmo ambiente, a dedicação do mérito que geramos individualmente aumenta qualidades positivas – prosperidade, longevidade e felicidade – para todos os seres.

Os ensinamentos de Buda nos permitem consumar uma transformação através da prática espiritual sem nos sentarmos numa almofada, sem anunciarmos nossa crença para os outros, sem religiosidade externa. Internamente, treinamos nossa mente e nos tornamos praticantes secretos no caminho à iluminação.

Fonte: Chagdud Gonpa Brasil.

Instruções sobre a Prática de Shamata

Escritas por Chagdud Khadro, baseadas nas instruções de Padmasambhava.

Em primeiro lugar, as preliminares:

Contemple os Quatro Pensamentos que Transformam a Mente

Contemple os Quatro Pensamentos que Transformam a Mente: 1) o nascimento humano precioso, 2) a impermanência e a morte, 3) carma, a lei de causa e efeito, 4) o sofrimento nos ciclos da existência condicionada.

Esses ensinamentos podem ser lidos no livro Portões da Prática Budista de Chagdud Rinpoche e Comentários sobre a Prática de Ngondro, de Chagdud Khadro. As contemplações combinadas com o descansar da mente são, em si, um treinamento em Shamata.

Tome Refúgio e Estabeleça a Boditchita

Tome refúgio com fé e devoção nas Três Joias, o Buda, o Darma e a Sangha.

Desenvolva a Boditchita, a intenção iluminada, pensando: trabalharei continuamente para o bem dos seres sencientes, que foram todos minhas mães em vidas prévias. Para consumar essa intenção, atingirei a iluminação e, para tanto, treinarei minha mente na concentração meditativa de Shamata, o calmo permanecer.

Em segundo lugar, a prática principal:

Aquiete a Mente através das Três Posturas

Corpo

Abstenha-se de 1) toda atividade mundana, 2) atividades religiosas que requeiram movimento como prostrações e a contagem das contas de seu mala e 3) todo e qualquer movimento corporal. Sente em uma boa postura de meditação, como a postura de sete pontos de Vairotchana, ou pelo menos mantenha suas costas retas e os olhos em uma posição adequada e abertos, mas com o olhar dirigido para baixo.

Fala

Abstenha-se de 1) toda conversa comum, 2) discussões religiosas e 3) recitação de mantras e de liturgias.

Mente

Abstenha-se de 1) pensamentos negativos, 2) pensamentos positivos e 3) insights intelectuais que surgem no contexto da prática de Mahamudra ou de Dzogtchen.

O Calmo Permanecer com Concentração em um Objeto Externo

Olhe para baixo, na altura do nariz, em direção ao objeto que é o foco de sua concentração, quer seja uma sílaba semente, uma pedra, uma pequena estátua, ou, na verdade, qualquer objeto pequeno. Preste atenção no objeto sem distração, evitando a percepção visual de outros objetos. Permita que sua mente descanse em concentração profunda no objeto. Se sua atenção se desviar, gentilmente retome o foco e descanse naturalmente.

O Calmo Permanecer com Concentração em um Objeto Visualizado

A Esfera Branca

Mantendo os olhos abertos, com o olhar dirigido para baixo, visualize uma pequena esfera branca (sânsc. bindu; tib. tigle) de luz em sua testa, entre as sobrancelhas. A esfera é vazia, mas luminosa, brilhante, cintilante como um arco-íris. Preste atenção nela, mas permaneça relaxado da forma mais natural possível.

A Esfera vermelha

Mantendo os olhos abertos, com o olhar dirigido para baixo, visualize seu corpo como sendo transparente e oco, uma cápsula de luz, clara e vazia. Dentro desta forma pura de seu corpo, no chacra do coração, visualize uma esfera de luz vermelha do tamanho da chama de uma vela. Assim como uma chama ardente, a esfera vermelha tem reflexos de luz azul. Preste atenção nela, permanecendo relaxado e natural.

Em terceiro lugar, a conclusão:

Finalizando a sessão

Relaxe o foco no objeto e simplesmente descanse a mente. Ela é aberta, alerta e natural. Quando pensamentos começarem a surgir, dirija-os para a dedicação.

Dedicação

Você pode usar qualquer prece genérica de dedicação, inclusive a dedicação da Prática Concisa de Tara. O mérito e a sabedoria da meditação são oferecidos a todos os seres, para que encontrem alívio das emoções aflitivas e da confusão da existência condicionada e para que conheçam o espaço de pureza e de lucidez, que é sua própria natureza búdica.