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Prece de Aspiração para Todos os Seres Vivos

 

Por Lama Norbu
A interdependência entre todos os seres vivos requer que tenhamos um senso compartilhado de responsabilidade pela sobrevivência e pelo bem estar dos membros desse planeta. Para conseguirmos isso, é necessária uma aspiração compassiva, que pode ser compartilhada entre todos os que valorizam a alegria e a diversidade da vida:

 

“Que possamos reconhecer o valor de todas as formas de vida, afirmando a dignidade e a interdependência inerente a todos os seres vivos, assim como o potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.

Que possamos cuidar dessa comunidade de vidas com amor e compaixão, compreendendo a responsabilidade universal de prevenir danos ao meio ambiente, proteger os direitos de todos os seres, e promover o bem comum.

Que possamos assegurar que os direitos humanos, a liberdade fundamental e a justiça social e econômica sejam supridas a toda a comunidade da humanidade.

Que possamos considerar cuidadosamente as consequências de nossas ações, compreendendo o profundo efeito que terão em gerações futuras, e nos esforçar para deixar um legado de generosidade e abundância, para apoiar o florescimento a longo prazo dos recursos naturais da Terra e das comunidades humanas e ecológicas.

Que possamos manifestar nossa crença no valor de todas as vidas ao assumir nossa responsabilidade como cidadãos do mundo.

Que possamos proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra.

Que possamos evitar danos ao meio ambiente dando apoio a ecossistemas sustentáveis e à diversidade biológica, adotando métodos de produção e consumo que minimizem a degradação ambiental.

Que possamos encorajar a aplicação tanto do conhecimento científico atual como da sabedoria antiga em favor da sustentabilidade ecológica.

Que possamos capacitar e apoiar os menos privilegiados, assegurando-lhes equanimidade econômica e social, eliminando qualquer forma de discriminação.

Que possamos eliminar a corrupção e encorajar as instituições a serem ambientalmente responsáveis.

Que possamos tratar todos os seres vivos com respeito e consideração, promovendo a cultura de tolerância, não-violência, paz e compreensão.”

*Adaptado dos “Princípios da Carta da Terra”.

 

Fonte: Odsal Ling.

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O Poder da Paz

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Por Chagdud Tulku Rinpoche

É meu desejo que o poder espiritual da paz toque as mentes de todas as pessoas na terra, irradiando da profunda paz de nossas próprias mentes, vencendo as barreiras políticas e religiosas, vencendo as barreiras do ego e da rigidez conceitual. A nossa primeira tarefa como pacifistas é limpar nossas mentes dos conflitos mentais causados pela ignorância, raiva, apego, inveja e orgulho. Os mestres espirituais podem nos guiar na purificação destes venenos e, através desta purificação, podemos aprender a essência da arte de promover a paz.

A paz interior que procuramos deveria ser tão absolutamente pura, tão estável, de modo que seja impossível de ser transformada em raiva por aqueles que vivem e lucram com a guerra, ou transformada em apego e medo ao se confrontar com o desprezo, o ódio e a morte. É necessária uma paciência infinita para se conquistar qualquer aspecto da paz mundial e a fonte desta paciência é o espaço de paz interior de onde você pode reconhecer, com perfeita clareza, que a guerra e o sofrimento são os reflexos externos dos venenos internos da mente.

Se você realmente entende que a verdadeira diferença entre os que fazem a paz e os que fazem a guerra é que aqueles que buscam a paz têm disciplina e controle sobre a raiva, o apego e a inveja egoístas, enquanto que os que fazem a guerra, em sua ignorância, manifestam os resultados destes venenos no mundo – se você verdadeiramente entende isso, você nunca se permitirá ser vencido por fatores externos ou internos.

Os budistas tibetanos usam o pavão como um símbolo do bodisatva, o Guerreiro Desperto que trabalha pela iluminação de todos os seres sencientes. Diz-se que o pavão se alimenta de plantas venenosas e as transmuta nas cores brilhantes de suas penas. O pavão não se envenena, assim como nós, que desejamos a paz, não nos envenenamos.

Ao encontrar os poderosos do mundo, sentados sobre suas máquinas de guerra, considere-os com estrita equanimidade. Argumente tão bem quanto você for capaz, mas esteja constantemente alerta para o estado de sua mente. Se começar a sentir raiva, recue. Se puder continuar sem raiva, talvez penetre no delírio terrível que causa a guerra e todos os seus sofrimentos infernais. Do claro espaço de sua paz interior, a compaixão deve se expandir para incluir todos os envolvidos na guerra – os soldados, apanhados pelo carma cruel de matar, que sacrificam seu renascimento precioso; os generais e políticos que querem trazer benefícios, mas causam destruição e morte; os civis, que são feridos, mortos e se tornam refugiados. A verdadeira compaixão é absolutamente neutra e abarca todos os tipos de sofrimento, sem se prender a certo ou errado, apego ou aversão.

O trabalho pela paz é, por si só, um caminho espiritual, um meio de desenvolver as qualidades perfeitas da mente e testar essas qualidades nos momentos de urgente necessidade, sofrimento extremo e morte. Não tenha medo de dedicar seu tempo, energia e riqueza.

Chagdud Tulku Rinpoche. The Power of Peace. In: Ordinary Magic: Everyday life as Spiritual Path.
Editado por John Welwood. Shambhala, 1992. Pág. 291-292.

O Significado da Oração Barched Lamsal

2Ensinamento concedido durante uma acumulação da oração Barched Lamsal.

Por S. Ema. Chagdud Rinpoche.

Khadro Ling, março de 1997.

Hoje, vamos fazer uma prática de remoção de obstáculos para que possam se manifestar condições favoráveis. Com essa prática, podemos remover nossos obstáculos e beneficiar aqueles que nos pediram ajuda e fizeram oferendas com esse propósito. Além de remover os obstáculos de quem solicitou a prática, podemos estender o benefício de nossas orações a todos os seres sencientes. No entanto, nossa capacidade de beneficiar está diretamente ligada à pureza de nossas ações. O ponto-chave é a motivação. Devemos manter uma motivação pura em todas as ocasiões, não somente no contexto desta prática específica. A pureza da virtude gerada dependerá da pureza de nossa motivação.

Em primeiro lugar, reconhecemos que, assim como nós, todos os seres – sejam inimigos, demônios ou pequenos insetos – anseiam por felicidade duradoura, mas não encontram a felicidade ou, quando a encontram, é uma felicidade temporária. Além disso, embora queiram ser felizes, com suas ações eles acabam criando o oposto daquilo que desejam. Ao ver essa realidade, sentimos compaixão, mas isso ainda não é o suficiente. É necessário fazer algo. Passamos a maior parte do tempo concentrados em nós mesmos e essa é uma atitude que não traz grande benefício. Nossa ação só será pura se nos desapegarmos de nós mesmos, se tivermos a intenção de ajudar os outros.

Se pensarmos no número de seres que habitam os reinos do samsara, veremos que o número de seres humanos é extremamente pequeno em comparação com o número de seres nos reinos dos infernos e dos fantasmas famintos. Entre os seres humanos, o número de pessoas que procuram uma prática espiritual não é grande. Além disso, é comum que a prática espiritual seja cultivada de forma errada, alimentando o ciúme, a inveja, o orgulho e a sensação de superioridade em relação a outras tradições espirituais. O número daqueles que mantêm uma prática espiritual com o coração puro é comparável ao número de estrelas visíveis durante o dia.

Para que a prática seja pura é necessário que esteja isenta de apego ao eu. Precisamos ser equânimes, evitar ideias como “Eu gosto desta pessoa e faço algo por ela, mas, por aquele outro, que não é uma boa pessoa, não faço.” Ou então, “Minha realização espiritual é melhor que a do outro. Ajudo os meus familiares, mas os outros, não.” Nossa intenção é ajudar a todos os seres, tanto os bons quanto os que causam mal.

Ao praticar, fazemos a aspiração de que nossos obstáculos e os de todos os seres sejam removidos, e que as condições auspiciosas, tanto mundanas quanto espirituais, possam aumentar. Rezamos também para que surjam benefícios a curto e a longo prazo. No entanto, nosso objetivo último é alcançar a iluminação. Se você tiver pesadelos constantes, pode tentar eliminá-los e passar a ter somente sonhos bons, mas ainda assim estará sonhando. Nosso objetivo é despertar do sonho. O mesmo se dá com as experiências do samsara: queremos eliminar as experiências difíceis e incrementar as positivas, mas o objetivo final é alcançar a iluminação para beneficiar a todos que nos verem, ouvirem ou tocarem em nós. Como seguidores do Mahaiana, praticamos para beneficiar a todos os seres. Devemos estabelecer esse tipo de motivação e mantê-la sempre.

Primeira linha

DU SUM SANG DJE GURU RIN PO TCHE
Guru Rinpoche, corporificação dos Budas dos três tempos;

Dirigimos esta oração a Guru Rinpoche. No nível externo, Guru Rinpoche é as Três Joias, no nível interno é as Três Raízes e no nível secreto é os Três Kaias.

Externamente, ele é a corporificação dos Budas dos três tempos: o Buda do passado, Dipankara, o Buda do presente, Shakiamuni, e o Buda do futuro, Maitréia. Guru Rinpoche é a manifestação da essência última de todos os Budas.
Internamente, com relação às Três Raízes, ele é o lama, a fonte das bênçãos e, dessa forma, incorpora as três linhagens: a linhagem de mente a mente dos vitoriosos; a linhagem simbólica – ou dos sinais – dos detentores do estado desperto e a linhagem oral, transmitida de boca a ouvido. Guru Rinpoche é a essência última da sabedoria do lama das três linhagens.

Num sentido secreto, com relação aos Três Kaias, a natureza de Guru Rinpoche é Darmakaia, a natureza que é vacuidade inseparável de sabedoria.

Segunda linha

NGÖ DRUB KUN DAG DE UA TCHEN PO JAB
Guru que é a grande bem-aventurança, senhor de todas as realizações;

No nível externo, Guru Rinpoche também é a joia do Darma que traz benefícios temporários e definitivos, visto que sua fala é a fonte das bênçãos dos ensinamentos.

NGO DRUB significa “fonte da verdadeira realização”, portanto, no nível interno, com relação às Três Raízes, Guru Rinpoche também é a deidade escolhida, o Yidam. Com relação aos Três Kaias, no nível secreto, ele também é Sambogakaia, a grande bem-aventurança.

Terceira linha

BAR TCHED KUN SEL DUD DUL DRAG PO TSAL
Guru que é o Dinâmico e Irado Domador de Maras, dissipador de todos os impedimentos;

Guru Rinpoche é o dissipador dos obstáculos nos cinco caminhos e dez bumis. A sanga auxilia na remoção de obstáculos e infortúnios e no aumento de qualidades positivas no caminho espiritual. Dessa forma, no nível externo, Guru Rinpoche também é a Sanga.

As dakinis e os protetores são a fonte da realização das atividades. Com essa prática, removemos todos os obstáculos à prática espiritual para que, então, as quatro atividades possam ser realizadas. Sendo assim, no nível interno, Guru Rinpoche também é as dakinis e os protetores do Darma. Ele incorpora toda a mandala das Três Raízes.

No nível secreto, ele também é Nirmanakaia, o objeto de refúgio de seres elevados e inferiores. Ele se manifesta de forma física para beneficiar todos os seres através dos ensinamentos e também os beneficia diretamente ao conceder iniciações, colocando-os no caminho da liberação. Assim sendo, Guru Rinpoche, que tem todas essas qualidades, é o objeto de nossa oração.

No nível externo, ele é as Três Joias: Buda, Darma e Sanga. No nível interno, ele é as Três Raízes: Lama, Deidade Escolhida (Yidam) e Dakini. No nível secreto, ele é os Três Kaias: Darmakaia, Sambogakaia e Nirmanakaia.

Guru Rinpoche é a manifestação de todos os seres iluminados, a fonte de todos os ensinamentos que nos proporcionam benefício temporário e definitivo. Ele é o detentor da coroa de todas as sangas e o detentor da coroa de todos os seres iluminados.

DUD DUL DRAG PO é um nome secreto de Guru Rinpoche cujo significado é: aquele que, sem medo, remove todos os obstáculos causados por obstrutores. Ele remove os obstáculos, que são os quatro maras. Quando tais obstáculos são removidos, os quatro tipos de atividades podem ser realizadas: a atividade pacífica, a de incrementação, a do poder e a irada. Por meio dessas atividades podemos beneficiar a todos os seres.
O objeto da nossa oração é puro desde o princípio sem princípio. Ao removermos os obstáculos temporários, as duas purezas podem ser consumadas.

Pelo poder da grande sabedoria, os dois tipos de obscurecimentos (venenos mentais e obscurecimentos intelectuais) podem ser removidos. Pela consumação do estado desperto além dos extremos, os obscurecimentos são liberados diretamente no espaço básico. Por isso, Guru Rinpoche é chamado o detentor de toda manifestação.

Quarta linha

SOL UA DEB SO DJIN DJI LAB TU SOL

Quando recitamos esta oração, num sentido externo estamos chamando o nome de Guru Rinpoche, mas o que verdadeiramente precisamos entender é que Guru Rinpoche é a fonte de todas as qualidades puras e, por isso, ele tem o poder de remover todos os obstáculos.

Pensamos em Guru Rinpoche com respeito e rezamos com fé intensa. E por que rezamos? O que desejamos quando rezamos?

Com a oração externa, nos aproximamos do objeto da nossa oração. Em tibetano, essa fase é chamada nyempa (aproximação), cujo significado é “movidos pela fé, nos aproximamos”.

Outra fase é chamada drugpa, que significa realização. Num sentido interno, reconhecemos que Guru Rinpoche é inseparável das Três Jóias, das Três Raízes e dos Três Kaias. Seu corpo, fala e mente é a mandala do corpo, fala e mente de sabedoria. Nosso corpo, fala e mente também têm uma natureza pura desde o princípio sem princípio, que antes não reconhecíamos. Reconhecer essa natureza pura e manter o reconhecimento é o significado da fase de realização (drugpa).

Num sentido secreto, a natureza da nossa mente é inseparável dos Três Kaias:

O Darmakaia é a própria natureza da nossa mente, a vacuidade inseparável de suas qualidades incessantes. O Sambogakaia reúne os cinco aspectos do estado desperto atemporal, que são:

1- A sabedoria darmadatu, que é a natureza da mente além dos extremos.
2- A sabedoria discriminativa.
3- A sabedoria clara como espelho.
4- A sabedoria da equanimidade.
5- A sabedoria que tudo realiza.

Há também o Nirmanakaia e o Sobavakakaia. Os quatro kaias e as cinco sabedorias são a nossa própria mente, inseparável do Lama. Precisamos adquirir confiança em relação a esse reconhecimento. A natureza de quem reza e a do objeto da oração são inseparáveis. Descansar sem esforço nessa natureza é a atividade iluminada.

DJIN DJI LAB TU SOL – aqui invocamos ou pedimos as bênçãos. Como as bênçãos nos são concedidas?

Ao receber a bênção do corpo de sabedoria, nosso corpo é transformado em um corpo de luz, o corpo vajra, que tem as sete qualidades vajra: ele é invulnerável, indestrutível, autêntico, incorruptível, estável, desobstruído e invencível. Ao receber a bênção da fala iluminada, consumamos a fala iluminada, ou fala vajra, a inseparabilidade de som e vacuidade. Ao receber a bênção da mente iluminada, consumamos a mente iluminada, a mente vajra. Portanto, solicitamos bênçãos dessas três maneiras e pedimos que possamos revelar o corpo, a fala e a mente iluminados.

Quinta linha

TCHI NANG SANG UE BAR TCHED JI UA DANG

Com relação aos obstáculos que podem surgir em nossa prática e impedir que alcancemos a iluminação, há os obstáculos externos, que são os medos. Todos os medos são manifestações externas de nossos venenos mentais e podem ser divididos em dezesseis categorias. Por exemplo, o orgulho se reflete externamente como o medo de terremoto, a raiva se reflete externamente como o medo de fogo e assim por diante.

1- medo da terra, medo de terremoto.
2- medo da água.
3- medo do fogo.
4- medo de vento, furacão.
5- medo da chuva de meteoros.
6- medo de armas em geral.
7- medo de cadeia, medo de autoridades.
8- medo de inimigos, ladrões e assaltantes.
9- medo de demônios canibais.
10- medo de elefantes furiosos e alucinados.
11- medo de leões.
12- medo de cobras venenosas.
13- medo de doenças contagiosas.
14- medo da morte inesperada.
15- medo da pobreza.
16- medo de não realizar as aspirações.

Os obstáculos internos são os quatro maras:
1- o mara dos agregados do corpo.
2- o mara dos venenos mentais.
3- o mara do falso contentamento. Acreditar na felicidade temporária, sem reconhecer que tudo muda o tempo todo. É como lamber o mel que está sobre a lâmina de uma faca.
4- o mara da morte.

Os obstáculos secretos são os venenos mentais: ignorância, desejo, raiva, inveja/ciúme, orgulho. Todos esses obstáculos criam empecilhos à iluminação. Como removemos os obstáculos externos? Com o reconhecimento de que toda aparência é o corpo puro, todo som é a fala pura e que a natureza da mente é sabedoria pura. Toda forma, tudo o que vemos, toda aparência é reconhecida como a forma pura da deidade. Todo som que ouvimos é o mantra da deidade, o som puro. Reconhecemos o que surge na nossa mente como inseparável do estado desperto atemporal, Darmakaia.

Quando alcançamos a realização da natureza pura de todas as coisas, os obstáculos externos se dissolvem. Se reconhecermos a natureza absoluta, os pensamentos duais se dissolvem, eliminamos o apego ao eu e, assim, conquistamos os maras, purificamos os cinco venenos mentais e consumamos as cinco sabedorias. Com isso, qualquer obstáculo que se manifestar será transformado em algo bom ou melhor.

Os obstáculos externos, internos e secretos são removidos pelo poder das bênçãos do corpo, fala e mente iluminados de Guru Rinpoche.

Sexta linha

SAM PA LUN DJI DRUB PAR DJIN DJI LOB

SAMPA significa que tudo que desejarmos no nível temporário possa ser realizado e que, deste momento até que alcancemos a iluminação, todas as condições favoráveis desejadas possam se manifestar.

Quais são essas condições favoráveis? Uma existência nos três reinos superiores: no reino dos deuses, dos semideuses ou dos seres humanos. Para isso precisamos desejar possuir sete qualidades que são:

1- Ter uma vida longa. Precisamos do nosso corpo humano. Este corpo é um bom veículo, e, como em um barco, a mente é o capitão. A mente determina a direção e o corpo a serve. Então, precisamos desejar ter uma vida longa.
2- Ter saúde. A mente pode ter pensamentos positivos, mas, se o corpo estiver doente, não conseguiremos realizar o que pensamos; por isso, desejamos ter um corpo saudável, bom e forte.
3- Ter boa fortuna, boa sorte, prosperidade.
4- Ter uma boa família, porque, se nascemos em uma família de índole ruim, podemos ser influenciados negativamente.
5- Ter boas condições financeiras, não ser pobre nem passar por dificuldades.
6- Ter qualidades como a inteligência, porque, sem inteligência, também se está impossibilitado de realizar coisas.
7- Ser bonito.

Essas são as sete qualidades dos renascimentos elevados.

As sete riquezas são:

1- Fé. Seja qual for a sua tradição, se você não tiver fé, não haverá conexão. Se você não mantiver a conexão, sua prática não dará resultado.
2- Disciplina moral. Abandonar ações negativas e agir de forma virtuosa.
3- Diligência, perseverança com alegria.
4- Ser consciencioso. Ter vergonha de fazer coisas erradas por saber que os outros vão perceber.
5- Conhecimento (inteligência). Você pode querer fazer algo positivo, mas se não tiver conhecimento, não conseguirá. É importante ter a qualidade ou a boa fortuna da escuta para poder adquirir conhecimento.
6- Generosidade. Sendo avarento, não sabendo dividir nada com ninguém, mesmo que você saiba ouvir, seja saudável, tenha capacidades e qualidades, não produzirá benefício.
7- Ter o conhecimento profundo, ou conhecimento transcendental, o melhor conhecimento; em tibetano: sherab.

No caminho espiritual não basta apenas ser diligente. Pode ser que algo o incomode durante a prática e você sinta vontade de parar, mas se force a continuar praticando – essa situação não é a ideal. No entanto, se soubermos que a prática traz benefícios para nós e para os outros, praticaremos com entusiasmo. Teremos essa qualidade da perseverança com alegria. Se não tivermos perseverança com alegria, sempre que surgirem dúvidas nossa prática enfraquecerá.

Pedimos as bênçãos para que possamos usufruir de todas as condições favoráveis no caminho que leva ao objetivo último: alcançar a realização extraordinária. Todos os seres, sejam seres humanos, animais, ou outro tipo de ser, têm mente. A essência da mente é a natureza búdica, que é pura. Não importa o tamanho do ser, se é grande ou pequeno, pois a sua essência é pura.

Se todos nós temos uma essência pura, então por que surge a experiência do samsara? Porque ainda não reconhecemos nossa essência pura. Ela está encoberta por obscurecimentos temporários, como os venenos da mente e os obscurecimentos intelectuais. Temos o hábito de não entender, de não reconhecer a essência pura: é isso que gera a experiência do samsara. O caminho para transformar a experiência do samsara e chegar à consumação da natureza absoluta é o acúmulo de mérito e de sabedoria.

A natureza da mente de cada ser é inseparável dos quatro kaias e das cinco sabedorias (ou cinco aspectos do estado desperto) e, no momento, está encoberta por obscurecimentos temporários. Com a prática dos estágios do desenvolvimento e da consumação, podemos remover esses obscurecimentos temporários e alcançar a realização extraordinária: o reconhecimento da verdadeira natureza da mente. Pedimos as bênçãos para alcançar essa realização extraordinária, a consumação do reconhecimento sem esforço da natureza absoluta.

Fonte: Chagdud Gonpa Brasil.

Canção do Despertar


Chagdud Tulku Rinpoche, mestre do budismo tibetano, que morou no Brasil e construiu diversos templos, entoava essa canção ao amanhecer chamando as pessoas para a prática. 

“Uh oh! Não durmas agora, ser afortunado.

Desperta com diligência.

De tempos sem princípio até agora tens dormido em ignorância.

Agora é o momento de deixar o sono para trás e alcançar a virtude,

com corpo, fala e mente.

Não te lembras da doença, velhice e morte?

Todo sofrimento além da conta e além da medida?

Esqueceste?

Quem sabe se terás o dia inteiro?

Agora é o momento de praticar com diligência.

Ainda tens esta oportunidade de gerar benefício duradouro,

então, por que desperdiçá-la por preguiça?

Se realmente contemplares a impermanência,

consumarás a tua prática rapidamente.

Quando a hora da tua morte chegar, estarás confiante.

Com a tua prática consumada,

não terás nenhum arrependimento.

Sem esta confiança,

qual terá sido o propósito da tua vida?

A natureza de todos os fenômenos é vazia e sem identidade,

como a lua refletida na água, uma bolha,

uma alucinação, uma emanação, uma ilusão,

uma miragem, um sonho, uma imagem no espelho, um eco.

Todo o samsara,

todo o nirvana

é assim.

Reconhece todas as coisas desta maneira.

Nada vem, nada fica, nada vai,

além de qualquer descrição por palavras,

além de qualquer concepção da mente.

Agora é o momento de alcançares a realização que é sem sinais.”

Fonte: Budismo Petrópolis.

Encontrando a Tranquilidade da Mente – Chagdud Tulku Rinpoche

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Se examinarmos nossas vidas, nosso descontentamento real, a angústia e o transtorno que experienciamos não se devem a condições externas. Ao invés disso, reagimos a essas condições internamente, e essa é a fonte da nossa infelicidade.

Pegue a pimenta vermelha, por exemplo. Para alguns, comida sem pimenta não vale a pena comer. Não tem qualquer sabor ou qualidade, é branda. Para outros, comida temperada com pimenta é terrível. Fará com que elas tussam e engasguem, e com que seus olhos lacrimejem. Elas poderão até pensar que quem quer que tenha posto pimenta na sua comida tinha más intenções! A pimenta em si não é diferente; é apenas o que é. Uma pessoa encontra prazer na pimenta, enquanto outra encontra dor e desconforto. Cada pessoa reage a ela de uma maneira diferente, dependendo dos seus próprios gostos e temperamento.

Não é o que acontece concretamente que nos faz felizes ou tristes. Pelo contrário, é nossa própria mente. Se nós realmente queremos realizar um estado de paz, se queremos entender nossa própria natureza perfeita, que vai além dos extremos da mente ordinária — feliz e triste, bom e mau —, devemos mudar a mente.

A mente ordinária percorre uma trilha pequena. De modo a descobrir as capacidades plenas da mente, devemos ampliar a nossa visão. Somos como alguém olhando por uma pequena porta numa cerca. Podemos ver apenas um pouco. Mas se pusermos a cerca de lado, teremos uma visão muito mais ampla, mais compreensiva.

A maioria de nós não está realmente consciente do quão afortunado e especial é ser humano. Como seres humanos, temos grandes capacidades que outros seres não têm. A mente é extremamente poderosa e conduz todas as nossas ações; temos a capacidade de dirigir nossas mentes.

A maioria das mentes humanas tem uma forte tendência de identificar problemas. Em si, isto não cria dificuldades, exceto que nos tornamos presos. Estamos constantemente resolvendo problemas. Quando estreitamos a mente para focarmos os nossos problemas, perdemos nossa visão mais ampla. E se não conseguimos resolver um problema, não conseguimos dormir, não conseguimos aproveitar a vida.

Isso é um pouco como olhar para uma fenda diminuta numa xícara de chá. A xícara ainda comporta chá. Não vaza. Mas se você foca na rachadura, você traz o poder da sua mente para ela, e então é como olhar para a fenda sob um microscópio. Não parece mais uma rachadura; parece o Grand Canyon. Da mesma maneira, quando focamos nossa mente num problema, perdemos nossa perspectiva e então o problema parece enorme. Sentimos que não conseguimos lidar com ele e então ficamos transtornados.

Embora, como humanos, tenhamos corpos e mentes muito bons, e embora as condições de nossas vidas sejam muito afortunadas, não reconhecemos isso — ou, se o fazemos, é apenas superficialmente. Por exemplo, noventa por cento pode ser maravilhoso, enquanto dez por cento é difícil. Mas notamos apenas os dez por cento e isso domina nossos pensamentos.

Não estamos aptos a apreciar a felicidade em nossas vidas. Mudar isso não é difícil, mas requer que olhemos para além de nossas próprias circunstâncias.

Precisamos olhar para as condições da humanidade — para a fome, a guerra, a doença e a morte que existem ao nosso redor, e ainda mais longe, para as condições dos seres através da existência. Se nos colocássemos no lugar daqueles que estão sofrendo, teríamos grande compaixão por eles.

O propósito disso não é fazê-lo sentir-se mal, mas fazê-lo entender o quão afortunado você é. Uma vez que você tenha se colocado no lugar dos outros, uma vez que você tenha imaginado o que eles sentem, você percebe que a sua própria vida não é tão ruim. É verdade que você tem dificuldades na sua vida, mas há uma escala de dificuldade de um a dez. Você pode determinar onde você está nesta escala — e descobrir onde suas dificuldades realmente jazem — apenas se você entender o sofrimento de todos os seres.

Quando você olha para as condições dos outros, você sente compaixão. Compaixão significa desejar que o sofrimento dos outros possa acabar. Ter compaixão cultiva boas qualidades dentro de você e lhe ajuda a perceber a sua própria boa fortuna. Seus problemas, embora reais, não são esmagadores; você pode lidar com eles. Saber isso liberará algo do estresse e da tensão na sua vida.

Se você contemplar como é estar na pele dos outros seres e então voltar à sua própria experiência de realidade, você encontrará tranquilidade na mente — um lugar onde há conforto e calma, onde você percebe que os seus problemas não são tão esmagadores. Deixe sua mente descansar nesta calmaria tanto quanto dure. Quando a agitação, as inquietações e preocupações surgirem de novo, volte seus pensamentos de volta às condições dos outros. Então, vá ao lugar de calma e relaxe. Esse é um tipo de meditação.

A meditação tem dois propósitos: remover a delusão da mente e então acentuar o que é natural na mente. Muitas pessoas pensam que meditação significa limpar a lousa da mente e sentar quietamente sem pensamentos, até que experimentem algo agradável. Este tipo de meditação pode ser feita por um curto período de tempo, mas há muito mais do que isto a ser feito. Uma mente descansada e confortável é algo que cultivamos. Não é um estado de relaxamento que impomos à força numa mente perturbada.

Essencialmente, há duas coisas que nos sobrecarregam e nos causam uma falta de paz: medo e esperança. Essas emoções estão constantemente nos empurrando e puxando em uma direção e depois em outra. Tememos isso ou queremos aquilo todo o tempo. Sentar em quietude por um pouco de tempo ajuda, mas não produz mudança durável.

O que produz uma transformação profunda começa com a contemplação. Nossa mente ordinária é como uma fita tocando num gravador. Já foi gravada com os pensamentos e com a fala de todos a nossa volta — nossos pais, nossos professores, nossos colegas de trabalho. Todas as nossas experiências de vida estão lá na fita. Quando sentamos e meditamos por um instante, é como colocar o gravador na “pausa”. Mas logo que paramos de meditar — tão logo o botão de “pausa” é desapertado — o mesmo velho barulho começa a tocar de novo pela nossa mente, e novamente somos empurrados e puxados sem socorro pela esperança e pelo medo.

É por isto que é importante regravar a fita. Se você é uma pessoa raivosa, você encontrará muitas coisas na sua vida para justificar sua raiva. Se você é uma pessoa triste, você encontrará muitas coisas na sua vida para justificar sua tristeza. Mas se você se concentrar em algo suficientemente mais forte, você esquecerá estas coisas. Por exemplo, se você se envolve em pintar ou olhar uma bela flor, sua mente estará ocupada por um momento e você se esquecerá de todas as coisas que estavam lhe fazendo ter raiva ou tristeza. Por um momento, elas escorregarão da dianteira de sua mente. Mais cedo ou mais tarde, ainda assim, elas voltarão.
Através da contemplação, entretanto, você pode regravar a fita e então criar mais paz na mente. Então, mesmo quando a fita estiver rodando, o som será agradável ao invés de desagradável e não lhe incomodará. Você não terá de desligá-lo.

Contemplando a Impermanência

Na contemplação, é importante reconhecer o quão afortunados nós somos, mas também temos de perceber que a nossa vida é impermanente, que não irá durar para sempre. Entender a impermanência é crucial para a maturidade espiritual.

Ao contemplar a impermanência, olhe para a sua vida. De onde você veio? Onde você nasceu? Você ainda vive lá? Quem são as pessoas com quem você viveu? Você ainda vive com elas? Em que casa você viveu? Quanto tempo faz que você a viu? O que aconteceu ao seu próprio corpo? As coisas estão diferentes agora. Tudo através da sua vida é impermanente.

Quando você começa a explorar a natureza da impermanência, você pode ficar deprimido(a). Você pode pensar “Ah, é tudo inútil. Tudo o que eu tenho, tudo o que criei, é impermanente. O tanto quanto amo minhas crianças, nossa relação é impermanente.” Se, por outro lado, você vier a entender verdadeiramente a impermanência, você entenderá o valor de cada momento. Você dirá, “Sim, minha vida é impermanente, mas enquanto eu a tenho, irei aproveitá-la. Enquanto eu puder ver o rosto de meu filho, irei apreciá-lo. Enquanto tiver meu lar, irei apreciá-lo. Essas coisas são apenas temporárias, então, enquanto as tenho, irei aproveitá-las.”

Isso é particularmente importante de lembrar em relacionamentos, por causa das dificuldades que surgem. Uma vez que você perceba que não sabe quanto tempo terá para ficar com seu parceiro, você entenderá o quão sem sentido é discutir. Por exemplo, por que se preocupar se o seu nariz está torto se você irá perder sua cabeça?

Se não entendermos a impermanência, se assumirmos que não iremos durar para sempre, então quando perdermos algo, a perda pode causar em nós uma grande angústia. Mas se soubemos que podemos perder tudo o que temos, e que por último, no momento da nossa morte, tudo se perderá, então quando algo se for, podemos aceitar facilmente que ele se foi.

Suponha que você compre um carro zero, um carro maravilhoso que você sempre quis. Se você pensar, antes mesmo que você o dirija até sua casa, sobre o quão impermanente ele é, então se você batê-lo, se ele for roubado ou se ele quebrar, você não experimentará o mesmo tipo de dor que você uma vez poderia sentir.

Há sabedoria e liberdade nesse entendimento, que nos permite apreciar o que temos quando o tivermos, e extrair o valor de cada momento. Então, a alegria que experimentamos é exuberante. Mesmo ver o rosto de um estranho na doçaria é um momento especial. Precisamos apreciar cada momento de nossas vidas desta maneira.

De acordo com o entendimento budista, há muitos tipos diferentes de existência, nenhum dos quais são tão maravilhosos quanto os nossos. Então, enquanto temos essa preciosa oportunidade, deveríamos apreciá-la e degustá-la, ao invés de nos focarmos em nossos problemas e falhas. Nossa vida é como um piquenique, como o é a vida de cada ser humano individual. As circunstâncias dos piqueniques dos outros podem não ser exatamente iguais às nossas, mas eles ainda têm um corpo humano precioso e uma mente extraordinária. Seu piquenique é de grande valor para eles. Não deveríamos nunca ser os responsáveis por arruiná-lo.

Em nossos relacionamentos com os outros — com nosso marido ou esposa, nossos parentes, nossos filhos ou nossos colegas de trabalho — nunca deveríamos dizer ou fazer algo que irá lhes causar sofrimento. Eles são seres humanos que têm tanto direito à felicidade quanto nós. Se mantivermos isso constantemente em nossa mente, não iremos feri-los; pelo contrário, faremos tudo que for necessário para assegurar a felicidade deles. Quando nossa(o) esposa(o) ou filhos deixam a casa, nunca sabemos se eles se foram por dez minutos ou se nunca voltarão para o lar. Nunca sabemos se nós mesmos voltaremos ao lar, porque a vida é impermanente. Nosso tempo, e o de todo mundo, é precioso. Sabendo isto, devemos ser extraordinariamente gentis e úteis aos outros.

Algumas vezes tentamos corrigir os outros. Mas quando tentamos mudá-los, eles resistem. Tão determinados quanto estivermos para mudá-los, eles estarão igualmente determinados a resistir. Isso é bem natural. Tentar mudar pessoas pela agressão e pela dominação é como tentar extinguir uma fogueira colocando mais madeira nela. Você só está piorando as coisas. Se, ao invés disso, você tirar pedaços de madeira do fogo, um por um, o fogo não terá uma fonte de energia e se esvairá — o problema foi resolvido. A agressão e a dominação nunca funcionam — eles apenas causam uma escalada. Qualquer que seja a circunstância, se você trouxer a ela um entendimento da impermanência, você será mais paciente.

Algumas vezes pensamos que, ao sermos pacientes, estaremos sendo ingênuos, estúpidos ou permitindo que a outra pessoa ganhe. Mas este realmente não é o caso. Todo mundo perde se não há paciência. Você pode conceder num assunto particular, mas no todo há um ganho maior porque você chegou mais perto da verdadeira paz na sua própria mente.

Sendo difícil aplicar a paciência no meio de um problema, é importante praticar a contemplação da impermanência antes que os problemas surjam. Praticar essa consciência é como fazer pequenos buracos através da falsa crença da permanência. Você reconhece, “Isso é impermanente, isso é impermanente, isso é impermanente.” Cedo ou tarde, alguém que é impermanente irá dizer algo rude a você. Mas ao invés de reagir do seu modo habitual, você irá entender, “Essa situação é impermanente; essa pessoa é impermanente.”

Ao lembrar da impermanência, você estará apto a lidar com a sua vida de um jeito diferente. Você terá mais paciência. Quando você perde a vista da impermanência, então tudo parece absorver sua atenção e ser crucialmente importante, e você reagirá com muita ansiedade, criando dificuldade não apenas para você, mas para qualquer um a quem você esteja reagindo.

A meditação sobre a impermanência é um recurso para quando a vida se torna turbulenta. Não é como uma bandagem para ser aplicada a uma ferida já existente. Pelo contrário, é algo com o qual você se fortifica para que, assim, você tenha mais força e uma maior capacidade para lidar com questões difíceis conforme elas surgirem. No início, não é tão fácil; há apenas uma pequena margem na sua mente para reagir, e quando alguém faz ou diz algo que você não gosta, você responde muito rapidamente, sem muito controle. Mas quando a meditação na impermanência tiver realmente penetrado na mente, sua reação é diferente. Você tem um momento para pensar antes de reagir: “Como eu desejo responder a essa situação? Poderia perder minha serenidade ou poderia ser paciente.” Neste momento de consideração, há mais liberdade na mente e mais paz.

Iluminação: Revelando a Verdadeira Natureza da Mente

O corpo humano é especialmente apropriado para revelar a verdadeira natureza da mente, para atingir a iluminação. Alguns animais, como os golfinhos, são muito espertos e podem ser treinados para fazer coisas fantásticas. Mas eles não podem ser treinados para reduzir sua raiva ou desejo. Eles podem ser treinados para nadar numa certa direção, mas não podem se dirigir às suas próprias mentes e aos seus conteúdos. Apenas os seres humanos conseguem fazer isto. Os humanos têm a capacidade de entender e aplicar os ensinamentos que fazem possível transformar a mente. Se alguém escolhe tornar a busca espiritual uma prioridade, esta mesma vida humana pode ser usada para alcançar a iluminação, para revelar completamente a verdadeira natureza da mente.

O significado da palavra “iluminação” não é tão remoto quanto parece. Para entendê-lo, começamos com a contemplação. Tudo no mundo é composto de outras coisas. Num momento o mundo não estava aí; então, todos os elementos e substâncias se formaram e agora a terra está aqui. Algum dia, todas essas substâncias irão se separar e o mundo não mais existirá. Da mesma maneira, num momento nosso corpo não existia. Então nossos pais fizeram um pouco disto e daquilo, e nosso corpo veio a ser. Algum dia, não teremos um corpo; irá cessar seu funcionamento e se decompor.

A mente não é assim. A mente não é composta; não é algo substancial. Você não consegue encontrar nenhuma prova da mente e ainda assim você não consegue negar a qualidade cognitiva que vai junto do que chamamos de “mente”.

Contemplar a relação do oceano com as ondas nos ajuda a entender a verdadeira natureza da mente em relação à mente ordinária. A verdadeira natureza da mente é como o oceano. A mente ordinária é como as ondas que surgem continuamente do oceano e que então se aquietam de volta nele. Esperança e medo, felicidade e tristeza, surgem na mente a todo instante e então se dissolvem. São impermanentes. Mas a verdadeira natureza da mente está além da impermanência. A natureza da mente é similar a um oceano —a mente é similar à flutuação das ondas — é a essência da existência humana. Eventualmente, através da meditação, percebemos que todas as ocorrências da mente similares às ondas são realmente inseparáveis da natureza da mente, vasta e além de vida e morte.

Ter felicidade na vida é maravilhoso, mas a felicidade é impermanente. Riqueza e fama são maravilhosas, mas também são impermanentes. A única coisa que realmente perdura — que é imutável porque nunca nasceu e nunca morre — é a natureza intrínseca da mente. Agora, esta natureza não está evidente para nós. Estamos tão centrados nas ondas que perdemos a visão do oceano.

O processo espiritual é um processo de revelar as qualidades da mente similar a um oceano. A iluminação não é algo que é alcançado no topo de uma montanha. Não é algo a ser procurado em alguém mais. A iluminação é a verdadeira natureza da mente de alguém, a qualidade inerente de alguém.

As pessoas pensam que você só pode ser mundano ou espiritual, mas na verdade os dois andam lado a lado. Para ser espiritual, você não tem de desistir do mundo. Há uma maneira da integrar os princípios espirituais na sua vida, no que quer que você faça ou pelo que você seja responsável. Isso não necessariamente causa grandes mudanças externamente. Pelo contrário, você pensa diferentemente sobre as coisas; você tem uma meta diferente. Nos caminhos ordinários do mundo, a meta é a felicidade — mas essa felicidade é apenas temporária. No caminho espiritual, a meta também é a felicidade, mas uma felicidade que seja imutável e perfeita, que é chamada de “iluminação”. Essa é a única diferença. Uma é uma meta a curto prazo e a outra é uma meta a longo prazo.

A maneira como nos aplicamos à meta de longo prazo na nossa vida diária é examinando nossa experiência. Sem uma prática espiritual, tendemos a ser muito distraíveis e compulsivos. Queremos isso, não queremos aquilo; gostamos disso, não gostamos daquilo. Temos esperança e medo sobre ter aquilo que queremos ou nos prevenimos contra o que não queremos. A mente está sempre perturbada desse jeito. Isso indica que estamos nos apegando a algo — uma ideia, um objeto ou um relacionamento — muito fortemente.

Precisamos examinar ao que estamos nos apegando através de três critérios. Primeiro, precisamos perguntar se é algo permanente ou impermanente.

Segundo, precisamos examinar se é uma coisa em si mesma ou um composto de outras coisas. Por exemplo, o que chamamos uma mesa não é apenas uma mesa; é um composto de muitas outras coisas. Cada uma destas coisas tem seu próprio nome, até o nível molecular. Logo, o nome “mesa”, com o qual nós contamos externamente como uma mesa, em essência não é exatamente isto. São muitas outras coisas.

Mesmo o corpo que pensamos como o “eu” é um composto. É constituído pela cabeça, mãos, pernas, órgãos, cabelo e olhos. O corpo não é uma singularidade. Se você tirasse a sua cabeça fora e a pusesse numa mesa, você não chamaria isso de corpo, você chamaria de cabeça. Normalmente pensamos na nossa cabeça como o “corpo”, mas o “corpo” é um título arbitrário dado a um composto de muitas coisas, cada uma com o seu próprio nome.

Terceiro, temos de examinar se a coisa à qual estamos apegados é livre. Em outras palavras, ela pode ser afetada por algo mais? O corpo parece ser bem livre. É o nosso próprio recurso. Mas a doença, o envelhecimento, o clima quente ou frio, todas as condições da vida o afetam. Isso significa que basicamente nos falta liberdade porque estamos constantemente sendo influenciados por algo mais. Tudo está sendo constantemente afetado por condições externas. Mesmo uma montanha, que parece completamente livre, pode ser movida aos poucos por um trator, ou retalhada pela água e pelo vento.

Tudo o que examinamos, tudo na existência, é impermanente, composto e sem liberdade. E ainda assim, somos desesperadamente apegados às coisas — queremos que as condições da nossa vida estejam num certo rumo. Mas como nada é permanente, singular ou livre, como as coisas conseguirão possivelmente tomar o rumo que queiramos que tomem? Somos como crianças perseguindo um arco-íris, pensando que podemos tê-lo. O que quer que seja a que estejamos nos apegando não pode ser mantido. Podemos nos esforçar para mantê-lo, mas não teremos sucesso.

É necessária muita contemplação para entender o significado disso. Mas uma vez que você o compreenda inteiramente, sua relação com a vida e com tudo o que está nela mudará. Você será como uma pessoa velha observando um grupo de crianças fazendo um castelo da areia na praia. Essas jovens crianças constroem toda uma fantasia ao redor de sua brincadeira — e para elas é real. A pessoa idosa pode se juntar e ajudá-las, mas não há qualquer dúvida na mente desta pessoa sobre a realidade da brincadeira.

Todas as coisas são impermanentes, castelos na areia. Sabendo disso, exatamente como a pessoa velha, você pode viver cada momento ao máximo, fazendo o que puder para trazer felicidade para as vidas dos outros, não se apegando a nada nem se tornando infeliz se as coisas não saírem do jeito que você queria.

Deste modo, através do entendimento espiritual, sua mente mudará gradualmente, conforme você se livra das falsas pressuposições que são a fonte do sofrimento para si e para os outros.

Possa haver benefício para todos os seres!

Por Chagdud Tulku Rinpoche
Transcrição de um ensinamento dado em Oakville, Califórnia, em junho de 1990.
Traduzido por Tsering Everest.

Fonte: Buda Virtual.

Lama Tsering Everest: Introdução ao Budismo [áudio do ensinamento em inglês, com tradução]

Introdução ao Budismo – parte 1

Introdução ao Budismo – parte 2

 

Fonte: Chagdud Gonpa Odsal Ling.

Transmissão da Prática de Tara Vermelha ao Vivo de São Paulo

https://budismoemblumenau.files.wordpress.com/2017/08/c4997-res_taravermelha.jpg

Prática de Tara Vermelha ao vivo com Lama Norbu

Terça-feira, 20h


A sangha de SP sempre se reuniu nas noites de terça-feira para fazer a prática de Tara concisa em português.

Vamos manter essa tradição, agora com transmissão ao vivo pela Internet, para que todos possam participar, onde quer que estejam.

Nesta terça (15/8), teremos a presença de Lama Norbu.

Participe clicando aqui!

Você pode mudar seu carma

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“O carma é algo criado por nós,
e tudo o que é criado pode ser alterado.”

 

Vya Estelar – O que são e quais são os venenos da mente?

Lama Tsering – Os venenos da mente são divididos em três categorias principais. A primeira é o apego ou desejo, que inclui o ficar preso física ou mentalmente a pessoas, objetos e fenômenos. A segunda é a raiva, que significa rejeitar, não querer, afastar algo de você. O terceiro é a ignorância, que significa não ter uma noção clara da vida, não compreender a natureza verdadeira das coisas.

Estes venenos agem de maneira interdependente. O que ocorre é que, quando não temos uma visão real da vida, acabamos criando desejos e apegos. E quando não conseguimos o que queremos, criamos aversão e ficamos com raiva.

Os venenos da mente agem como toxinas, criando energias mentais negativas.

Estas energias são expressas em nossas ações, palavras e pensamentos, causando um sofrimento cíclico, em cadeia, que se repete infinitamente.

Vya Estelar – Existem 84.000 venenos na mente?

Lama Tsering – Sim. Eles são uma combinação dos três venenos principais, sendo que podemos adicionar a eles o orgulho e a inveja. Estas combinações vão ficando cada vez mais sofisticadas e representam as diferentes formas errôneas com que nossa mente pode atuar.

Vya Estelar – A raiva seria o principal veneno da mente?

Lama Tsering – A raiva é o veneno mais grosseiro e o que traz as consequências mais terríveis, cruas e diretas. O desejo é mais sutil e, em nossa sociedade atual, é até mesmo considerado uma coisa boa, apesar de trazer tanto sofrimento. Mas o veneno fundamental, realmente, é a ignorância, é o não reconhecimento da natureza verdadeira dos fenômenos. Não podemos dizer que a ignorância seja o pior veneno, mas ele é o primeiro, o que dá origem a todos os outros.

Vya Estelar – Como fazer para eliminar a raiva ou domá-la?

Lama Tsering – Há várias formas para começar a lidar com nossos venenos mentais. A primeira coisa a ser feita é reeducar-nos, no sentido de identificar os venenos em nossa própria mente, suas consequências e o que podemos esperar deles. Parece óbvio dizer que temos que nos reeducar, mas não é. Por exemplo, achamos que é OK ficar com raiva quando alguém faz algo errado conosco, nos fere, é injusto. E não é OK. A raiva é um veneno mental e produz experiências dolorosas para quem a sente, não importando se o motivo que a tenha criado seja “aparentemente justificável”.

Você tem que ser educado para saber que não deve tomar veneno de rato, por exemplo. Se você entender isso, vai saber que, se tomar veneno de rato, ainda que o gosto seja doce, sofrerá um dano imenso.

Vya Estelar – Há um senso comum entre as pessoas de que devemos expressar nossa raiva, “pôr para fora”. O Budismo acredita nisso de alguma forma?

Lama Tsering – Não, o Budismo não acredita nisso, porque os venenos da mente agem como um bumerangue. Se você atirar sua raiva adiante, o que você vai receber de volta é mais raiva. Nós compreendemos que nossas ações, palavras e pensamentos são como bumerangues, e não como uma bola, que jogamos em direção a alguém e lá ela fica. O bumerangue é atirado adiante e ele volta. Quando não entendemos essa regra básica, nos tornamos nossas próprias vítimas e, feridos e ignorantes, jogamos o bumerangue de volta, causando sofrimento atrás de sofrimento.

O Senhor Buda ensinou que é importante termos paciência, mesmo quando momentos difíceis acontecem, porque estes momentos são resultado de bumerangues lançados por nós mesmos, anteriormente. Se um bumerangue estiver voltando, aceite-o, tenha paciência, deixe que ele caia. Não atire mais três ou quatro de volta, porque eles também vão voltar.

Vya Estelar – É melhor “engolir” a raiva?

Lama Tsering – Melhor engolir do que cuspir de volta. Mas engolir também não ajuda. Por isso, precisamos nos reeducar. Temos que refletir e contemplar as consequências dos venenos mentais, para começamos a obter elementos para lidar com eles. No entanto, o que precisamos realmente é cortar esses venenos. E isso conseguimos fazer através da meditação.

Mas, enquanto não desenvolvermos estas técnicas de contemplação e meditação, precisamos evitar a raiva. Se ainda não tivermos os meios hábeis para lidar com a situação, é melhor correr do que reagir. Ou talvez você deva segurar sua respiração por um instante e esperar a raiva passar. Quando você estiver um pouco mais treinado, talvez não precise correr nem prender a respiração, e consiga converter a situação negativa em amor e compaixão.

Talvez consiga transformar a raiva, lembrando-se de que todos querem ser felizes, e as pessoas fazem o que fazem porque acham que aquilo trará felicidade. Ao lembrar-se disso, pode cultivar a compaixão e ver que você e aquela pessoa não são diferentes: você já agiu raivosamente antes porque achava que aquilo o faria feliz. E, compassivo pelo fato de que aquela pessoa não sabe das consequências que a raiva traz, você converte sua emoção negativa em emoções positivas, como amor e compaixão.

E mais tarde, quando você já estiver ainda mais treinado, poderá não apenas converter o negativo em positivo, mas liberar as emoções negativas em sua própria essência, cuja natureza é a perfeição.

Grandes mestres e praticantes lidam com sua raiva dessa forma. A raiva ocorre, mas ela é livre, assim como as nuvens, que ocorrem mas dançam livres no céu.

Vya Estelar – O que é a impermanência?

Lama Tsering – Encare sua vida como se fosse um banco no parque, em uma tarde de clima ameno. Você vai até lá passar algumas horas, sentado, aproveitando tudo ao máximo: a brisa fresca, os pássaros cantando, as borboletas, o sol batendo no rosto. Tudo aquilo dura pouco tempo e vai chegar ao fim. Por isso, você deve aproveitar o momento e criar boas condições. Você não deve se apegar ao banco.

Não tente colocar uma etiqueta nele com o seu nome, querendo mantê-lo para você! Isso vai impedi-lo de sentir o prazer e a liberdade de estar lá, simplesmente sentado. E se alguém se sentar com você, seja gentil, tratando-a com amor e compaixão. Não brigue com esta pessoa. Seu tempo é muito curto. Vocês estão ali apenas de passagem.

Ao lembrarmos de que tudo na vida é impermanente e chega ao fim, podemos ser generosos com ela, sabendo que provavelmente ela nunca pensa no fato de que terá que deixar o banco em breve, assim como você. Todos nós queremos manter as coisas e não conseguimos. Temos que ter compaixão por elas, e por nós mesmos. Compreender a impermanência nos faz ricos: temos tudo neste momento e podemos ser generosos, abertos, decididos a fazer o que pudermos para beneficiar a todos com o nosso amor, sem medo de perder.

Vya Estelar – É possível reduzir o carma?

Lama Tsering – Sim, o carma é purificável através da educação e da meditação. O carma é algo criado por nós, e tudo o que é criado pode ser alterado. Só o que está além da criação – como a natureza absoluta da nossa mente – não pode ser alterado. Há duas formas de eliminar o carma negativo: uma delas é experienciar as situações da vida sem rejeitá-las, e recebê-las com amor e compaixão, transformando carma negativo em positivo; a outra forma é purificar o carma negativo antes de vivenciá-lo, e ir além do carma, não importando se ele é positivo ou negativo. Esta segunda maneira de abordar a questão é crucial, mas só pode acontecer depois de treinarmos nossa mente através de avançadas técnicas de meditação.

De maneira mais imediata, a melhor coisa a ser feita é transformar carma negativo em carma positivo. Mas precisamos ter em mente que produzir carma positivo não é uma solução absoluta para nosso sofrimento. Porque todo carma, positivo ou negativo, é impermanente. Isso significa que, seja qual for o resultado positivo que você crie, ele também vai mudar, mais cedo ou mais tarde. É um ciclo: o que é positivo se transforma em negativo e o que é negativo, em positivo. A única saída é obter a realização da iluminação e tirar você e sua mente deste sistema cíclico de existência. Enquanto isso não ocorre, faça seu melhor e crie condições positivas para suas experiências futuras, aceitando o seu carma, vivendo-o da melhor forma possível e o purificando.

Vya Estelar – Como fazer para terminar um relacionamento com alguém com quem não combinamos muito, sem criar carma negativo e nem sofrimento?

Lama Tsering – Podemos dizer que a principal religião de nossa sociedade atual é o amor – nossas músicas, nossos filmes e nossos anseios são todos a respeito de relacionamentos – e, no entanto, nós nem ao menos sabemos o que é o amor. As pessoas se preocupam muito com os relacionamentos mas, na verdade, elas se preocupam mesmo é consigo mesmas. Elas querem ter um amor porque isso fará com que elas se sintam bem.

E o Budismo traz um novo paradigma a este respeito: amar é querer que o outro seja feliz. Ao amar, devemos nos preocupamos com o bem-estar do outro e não em atender aos nossos interesses. Se você está com uma pessoa, é por causa do carma. Enquanto estiver com ela, você deve fazê-la o mais feliz possível. E se você deve terminar ou não o relacionamento, vai depender se isso vai fazê-la mais feliz ou mais infeliz. Sua preocupação não deve ter nada a ver com a sua própria felicidade. Se você tiver isto em mente, é mais provável que tome a decisão mais correta.

O relacionamento vai acabar de um jeito ou de outro. Lembre-se da impermanência: você e a outra pessoa não duram para sempre. O próprio relacionamento é impermanente e vai acabar naturalmente, quando não houver mais carma entre vocês. Então, aproveite o momento, e não se esqueça de pensar no bem-estar dos demais, mais do que no seu próprio. Isso é libertador.

*Entrevista de Lama Tsering concedida ao site Vya Estelar

Fonte: http://www.odsalling.org/sermon/voce-pode-mudar-seu-carma/