Arquivo mensal: março 2018

Desejos superficiais e extraordinários

“Até agora nossos desejos tenderam a ser muito superficiais, egoístas e imediatistas. Se tivermos que querer algo, então que seja nada menos do que a completa iluminação de todos os seres. Eis aí algo digno de ser desejado. Recordarmo-nos sempre do que verdadeiramente vale a pena querer é um importante elemento da prática espiritual.

Desejo e apego não mudam da noite para o dia. O desejo, porém, torna-se menos comum à medida que redirecionamos nossos anseios mundanos para a aspiração de fazer tudo o que está ao nosso alcance para ajudar todos os seres a encontrar felicidade permanente.

Não temos que abandonar os objetos habituais dos nossos desejos — relacionamentos, riqueza, fama — mas, na medida em que contemplamos sua impermanência, ficamos menos apegados a eles. Se temos a atitude de nos regozijar com a nossa sorte quando eles aparecem e, ao mesmo tempo, reconhecermos que não irão durar, começamos a desenvolver qualidades espirituais. Cometemos, em menor número, os atos nocivos que resultam do apego e, assim, criamos menos carma negativo; geramos mais carma favorável, aumentando gradativamente as qualidades positivas da mente.”

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”.

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A paciência é a maior amiga

“A paciência é a maior amiga, pois ajuda a superar a raiva, a forma mais poderosa de desvirtude. Por outro lado, com o passar do tempo, aparentar paciência e ferver por dentro, guardando ressentimento, só trás mais dificuldades. Apesar de haver virtude no fato de refrearmos a expressão evidente da raiva, a verdadeira paciência é a ausência de raiva na mente.”

– Chagdud Tulku Rinpoche – extraído do livro Sementes de Sabedoria – Reflexões budistas para cultivar a paz.

A preparação para a morte

“A morte nos espera, quer estejamos preparados ou não, quer pensemos nela ou não. Para muitos de nós a ideia de morrer traz tamanho mal-estar que preferimos evitá-la por completo. Podemos até nos enganar, tentando nos convencer de que não temos medo da morte, de que ela não é nada demais. Entretanto, aqueles que morrem sem preparados são assaltados por um medo tremendo, um medo que não se compara a nada que já tenhamos vivenciado. A falta de controle sobre o corpo e a perda de tudo que nos é familiar provocam não só pavor, mas também desorientação e confusão. Algumas pessoas sentem um grande arrependimento, uma sensação de que suas vidas, todos os seus esforços, foram sem propósito. Elas sentem uma tristeza enorme ao olhar para trás e descobrir que deixaram de perceber o sentido principal de toda essa experiência.

Precisamos nos preparar para o momento em que a mente e o corpo irão se separar, desenvolvendo hábitos fortes de prática espiritual que não se evaporem diante da morte. Há um ditado tibetano que diz: “Quando você já está apertado, é tarde demais para construir um banheiro”. Se nos familiarizarmos com o processo do morrer, não seremos pegos de surpresa; não seremos paralisados pelo medo nem distraídos pela confusão. Se desenvolvermos as habilidades meditativas necessárias, a morte poderá ser uma porta para o estado imortal da iluminação, a partir do qual poderemos trazer, sem cessar, benefícios para todos os seres.”

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”, cap. 20.

Canção do Despertar


Chagdud Tulku Rinpoche, mestre do budismo tibetano, que morou no Brasil e construiu diversos templos, entoava essa canção ao amanhecer chamando as pessoas para a prática. 

“Uh oh! Não durmas agora, ser afortunado.

Desperta com diligência.

De tempos sem princípio até agora tens dormido em ignorância.

Agora é o momento de deixar o sono para trás e alcançar a virtude,

com corpo, fala e mente.

Não te lembras da doença, velhice e morte?

Todo sofrimento além da conta e além da medida?

Esqueceste?

Quem sabe se terás o dia inteiro?

Agora é o momento de praticar com diligência.

Ainda tens esta oportunidade de gerar benefício duradouro,

então, por que desperdiçá-la por preguiça?

Se realmente contemplares a impermanência,

consumarás a tua prática rapidamente.

Quando a hora da tua morte chegar, estarás confiante.

Com a tua prática consumada,

não terás nenhum arrependimento.

Sem esta confiança,

qual terá sido o propósito da tua vida?

A natureza de todos os fenômenos é vazia e sem identidade,

como a lua refletida na água, uma bolha,

uma alucinação, uma emanação, uma ilusão,

uma miragem, um sonho, uma imagem no espelho, um eco.

Todo o samsara,

todo o nirvana

é assim.

Reconhece todas as coisas desta maneira.

Nada vem, nada fica, nada vai,

além de qualquer descrição por palavras,

além de qualquer concepção da mente.

Agora é o momento de alcançares a realização que é sem sinais.”

Fonte: Budismo Petrópolis.