A Inseparabilidade da nossa Mente e da Mente do Lama

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“A essência da prática chamada de guru ioga é nos apoiarmos em um professor para alcançarmos a liberação. Guru é o termo em sânscrito para lama, ou mestre espiritual. […] Por meio da guru ioga, a realização que o lama possui da natureza pura da mente desponta como realização em nosso fluxo mental.

A compreensão na guru ioga de que o lama é a união de todas as fontes de refúgio apressa nosso progresso no caminho. […]

O lama corporifica as Três Joias, que são o Buda, o Darma e a Sangha; as Três Raízes, que são o lama, o yidam e a dakini; a deidade da prosperidade; os protetores do Darma e os três kayas.

[…] Embora não tenhamos carma para ter recebido ensinamentos diretamente de Buda Shakiamuni, o lama fala como Buda teria falado e utiliza meios para nos guiar que Buda teria utilizado.

Recebemos as bênçãos do lama de forma direta por meio de iniciações, instruções e orientação para nossa prática. O lama nos apresenta ao fato de que a existência cíclica é uma estado de sofrimento, à necessidade de buscarmos liberação desse sofrimento e aos meios para isso.

Após ouvir e aplicar os ensinamentos do lama, começamos a experimentar um espírito de renúncia: nos afastamos de pensamentos e de ações contraproducentes ao desenvolvimento espiritual e cultivamos aqueles que são frutíferos. Onde havia ignorância, agora há alguma compreensão. Onde havia apenas mente comum conceitual, agora experimentamos a sabedoria. Nossos interesses autocentrados, sempre presentes, bem como os venenos da mente, lentamente diminuem, e a capacidade de lidar com eles aumenta. Nossa percepção do mundo começa a mudar. Essas são todas bênçãos do lama.

[…] Ao nos amadurecer por meio de iniciações, ao nos liberar por meio de ensinamentos e ao sustentar nossa prática com bênçãos e inspiração, o lama nos capacita a vivenciar diretamente a verdadeira natureza da mente.

[…] Compreendemos que, por meio da compaixão, da realização e das bênçãos do lama, bem como da fé, devoção e desejo de emular essas qualidades, teremos a experiência da inseparabilidade da nossa mente e da mente do lama.”

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”, cap. 21.

A Prática da Meditação no Cotidiano

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“Na prática da meditação no cotidiano, trabalhamos com dois aspectos da mente: sua capacidade de raciocinar e conceitualizar – o intelecto – e a qualidade que está além do pensamento – a natureza não conceitual e ilimitada da mente. Utilizando a faculdade racional, você contempla. Depois deixe a mente repousar. Pense, e então relaxe; contemple, e então relaxe. Não use um ou outro exclusivamente, mas os dois juntos, como as asas de um pássaro.

Isso não é algo a ser feito apenas quando você está sentado em uma almofada. Você pode meditar assim em qualquer lugar – enquanto guia o carro, enquanto trabalha. Não há necessidade de objetos especiais nem de um ambiente especial. Essa meditação pode ser praticada em todas as circunstâncias da vida.”

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”, cap. 5.

Pergunta e Resposta

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PERGUNTA: Se alguém que viveu uma vida virtuosa sofre um acidente e passa por grandes dificuldades, é difícil ver esse infortúnio como sendo resultado de uma ação negativa que a pessoa cometeu 500 mil vidas atrás. Não me parece justo.

RESPOSTA: Se plantarmos arroz, trigo e cevada indiscriminadamente em um campo, não poderemos nos queixar sobre a mistura confusa de grãos na hora da colheita. Se não queríamos isso, não deveríamos ter plantado dessa forma. Sempre que se planta uma semente, o resultado é inevitável. Portanto, em vez de nos aborrecermos no momento da colheita, precisamos aprender a ser mais cuidadosos durante o plantio.

Em uma vida anterior, cometemos a ação negativa que nos trouxe o sofrimento presente. Não adianta nada chorar agora, reivindicando que o que está acontecendo não é justo. O importante é praticarmos ações que produzam resultados favoráveis e não ficarmos fixados nos resultados inevitáveis de ações negativas anteriores.

Nossas ações passadas não são apenas a razão de nosso sofrimento, mas também de nossa felicidade. O problema é que queremos apenas o desenrolar do carma positivo. Entretanto, se desejamos o amadurecimento de bons frutos, precisamos plantar boas sementes.

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Portões da Prática Budista”, cap. 10.

As raízes da felicidade e do sofrimento

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“Onde quer que vivamos, seja qual for a nossa cor, cultura ou religião, todos queremos evitar o sofrimento e encontrar uma fonte estável de contentamento e satisfação. Dentre os vários reinos da experiência, o reino humano oferece a maior oportunidade para a realização deste desejo. Como seres humanos, podemos operar mudanças utilizando a mente. Ao contrário dos animais, temos o dom de entender conceitos complexos. Podemos contemplar o que ouvimos ou lemos e validar ou refutar esses conceitos, agindo de acordo com nossas convicções, não com uma fé cega, mas após exame e análise detalhados. Por isso, este corpo humano, junto com a mente, constitui um veículo único e precioso que tem o potencial de nos levar além de todo o sofrimento ainda nesta vida.

Por que, então, não conseguimos evitar o sofrimento ou manter os momentos fugazes de felicidade? Por não sabermos o que evitar e o que aceitar na busca pela felicidade duradoura. A motivação autocentrada nos leva a agir de um modo que apenas produz mais sofrimento, e que obscurece ainda mais as verdadeiras fontes de felicidade. A nossa tendência é de nos concentrarmos naquilo que não temos – nossa lista de desejos – e de nos fixarmos em dificuldades que são superáveis. Essa insatisfação nos cega para nossas qualidades inerentes e impede que as usemos para beneficiar nós e os outros. É como alguém que, tentando ficar mais saudável, tomasse veneno por engano, adoecesse e morresse; voltasse a vida no dia seguinte tomasse o mesmo veneno, adoecesse e morresse, repetindo o processo infinitamente. Essa é a situação em que todos os seres humanos se encontram.”

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Para Abrir o Coração”, cap. 10, Ed. Makara.

Vida Humana Preciosa

Nós, seres humanos, temos a constituição física e mental perfeita para mudarmos a mente comum e revelarmos a sua verdadeira natureza; temos liberdade suficiente para determinarmos a direção da nossa existência e acesso aos métodos para transcender completamente o sofrimento. Nessa vida humana preciosa, podemos usar nosso corpo, fala e mente de forma negativa para causar mal a nós mesmos e aos outros; de forma positiva, para aumentar nossas nossas boas qualidades e, assim, criar mais benefícios; ou, em última instância, podemos usá-los para encontrar a felicidade duradoura, além das experiências fugazes, instáveis e cíclicas de prazer e dor dentro do samsara.

– Chagdud Tulku Rinpoche, trecho extraído do livro “Para Abrir o Coração”, cap. 12, Ed. Makara.

Saga Dawa 2018

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Imagem: Buddha Shakyamuni and 17 Nalanda Masters.

O Saga Dawa é um dos quatro períodos mais sagrados dentro do calendário budista, e marca o nascimento, a iluminação e o parinirvana de Buda Shakiamuni. É dito que os méritos são acumulados exponencialmente durante esses dias e, por isso, nos dedicamos à acumulação de virtude e à renúncia a atitudes não virtuosas, inspirando-nos na vida de Buda Shakiamuni.

Quer seja fazendo oferendas, empenhando-se em práticas de meditação ou fazendo votos que lembrem seus compromissos, os praticantes fazem um esforço extra para manter a conduta perfeita e treinar a própria mente, para trazer benefício a todos os seres.

O Saga Dawa tem início na terça-feira, 15 de maio de 2018, e termina na Lua Cheia do dia 29 de maio.

Fonte: Odsal Ling.

O Significado da Oração Barched Lamsal

2Ensinamento concedido durante uma acumulação da oração Barched Lamsal.

Por S. Ema. Chagdud Rinpoche.

Khadro Ling, março de 1997.

Hoje, vamos fazer uma prática de remoção de obstáculos para que possam se manifestar condições favoráveis. Com essa prática, podemos remover nossos obstáculos e beneficiar aqueles que nos pediram ajuda e fizeram oferendas com esse propósito. Além de remover os obstáculos de quem solicitou a prática, podemos estender o benefício de nossas orações a todos os seres sencientes. No entanto, nossa capacidade de beneficiar está diretamente ligada à pureza de nossas ações. O ponto-chave é a motivação. Devemos manter uma motivação pura em todas as ocasiões, não somente no contexto desta prática específica. A pureza da virtude gerada dependerá da pureza de nossa motivação.

Em primeiro lugar, reconhecemos que, assim como nós, todos os seres – sejam inimigos, demônios ou pequenos insetos – anseiam por felicidade duradoura, mas não encontram a felicidade ou, quando a encontram, é uma felicidade temporária. Além disso, embora queiram ser felizes, com suas ações eles acabam criando o oposto daquilo que desejam. Ao ver essa realidade, sentimos compaixão, mas isso ainda não é o suficiente. É necessário fazer algo. Passamos a maior parte do tempo concentrados em nós mesmos e essa é uma atitude que não traz grande benefício. Nossa ação só será pura se nos desapegarmos de nós mesmos, se tivermos a intenção de ajudar os outros.

Se pensarmos no número de seres que habitam os reinos do samsara, veremos que o número de seres humanos é extremamente pequeno em comparação com o número de seres nos reinos dos infernos e dos fantasmas famintos. Entre os seres humanos, o número de pessoas que procuram uma prática espiritual não é grande. Além disso, é comum que a prática espiritual seja cultivada de forma errada, alimentando o ciúme, a inveja, o orgulho e a sensação de superioridade em relação a outras tradições espirituais. O número daqueles que mantêm uma prática espiritual com o coração puro é comparável ao número de estrelas visíveis durante o dia.

Para que a prática seja pura é necessário que esteja isenta de apego ao eu. Precisamos ser equânimes, evitar ideias como “Eu gosto desta pessoa e faço algo por ela, mas, por aquele outro, que não é uma boa pessoa, não faço.” Ou então, “Minha realização espiritual é melhor que a do outro. Ajudo os meus familiares, mas os outros, não.” Nossa intenção é ajudar a todos os seres, tanto os bons quanto os que causam mal.

Ao praticar, fazemos a aspiração de que nossos obstáculos e os de todos os seres sejam removidos, e que as condições auspiciosas, tanto mundanas quanto espirituais, possam aumentar. Rezamos também para que surjam benefícios a curto e a longo prazo. No entanto, nosso objetivo último é alcançar a iluminação. Se você tiver pesadelos constantes, pode tentar eliminá-los e passar a ter somente sonhos bons, mas ainda assim estará sonhando. Nosso objetivo é despertar do sonho. O mesmo se dá com as experiências do samsara: queremos eliminar as experiências difíceis e incrementar as positivas, mas o objetivo final é alcançar a iluminação para beneficiar a todos que nos verem, ouvirem ou tocarem em nós. Como seguidores do Mahaiana, praticamos para beneficiar a todos os seres. Devemos estabelecer esse tipo de motivação e mantê-la sempre.

Primeira linha

DU SUM SANG DJE GURU RIN PO TCHE
Guru Rinpoche, corporificação dos Budas dos três tempos;

Dirigimos esta oração a Guru Rinpoche. No nível externo, Guru Rinpoche é as Três Joias, no nível interno é as Três Raízes e no nível secreto é os Três Kaias.

Externamente, ele é a corporificação dos Budas dos três tempos: o Buda do passado, Dipankara, o Buda do presente, Shakiamuni, e o Buda do futuro, Maitréia. Guru Rinpoche é a manifestação da essência última de todos os Budas.
Internamente, com relação às Três Raízes, ele é o lama, a fonte das bênçãos e, dessa forma, incorpora as três linhagens: a linhagem de mente a mente dos vitoriosos; a linhagem simbólica – ou dos sinais – dos detentores do estado desperto e a linhagem oral, transmitida de boca a ouvido. Guru Rinpoche é a essência última da sabedoria do lama das três linhagens.

Num sentido secreto, com relação aos Três Kaias, a natureza de Guru Rinpoche é Darmakaia, a natureza que é vacuidade inseparável de sabedoria.

Segunda linha

NGÖ DRUB KUN DAG DE UA TCHEN PO JAB
Guru que é a grande bem-aventurança, senhor de todas as realizações;

No nível externo, Guru Rinpoche também é a joia do Darma que traz benefícios temporários e definitivos, visto que sua fala é a fonte das bênçãos dos ensinamentos.

NGO DRUB significa “fonte da verdadeira realização”, portanto, no nível interno, com relação às Três Raízes, Guru Rinpoche também é a deidade escolhida, o Yidam. Com relação aos Três Kaias, no nível secreto, ele também é Sambogakaia, a grande bem-aventurança.

Terceira linha

BAR TCHED KUN SEL DUD DUL DRAG PO TSAL
Guru que é o Dinâmico e Irado Domador de Maras, dissipador de todos os impedimentos;

Guru Rinpoche é o dissipador dos obstáculos nos cinco caminhos e dez bumis. A sanga auxilia na remoção de obstáculos e infortúnios e no aumento de qualidades positivas no caminho espiritual. Dessa forma, no nível externo, Guru Rinpoche também é a Sanga.

As dakinis e os protetores são a fonte da realização das atividades. Com essa prática, removemos todos os obstáculos à prática espiritual para que, então, as quatro atividades possam ser realizadas. Sendo assim, no nível interno, Guru Rinpoche também é as dakinis e os protetores do Darma. Ele incorpora toda a mandala das Três Raízes.

No nível secreto, ele também é Nirmanakaia, o objeto de refúgio de seres elevados e inferiores. Ele se manifesta de forma física para beneficiar todos os seres através dos ensinamentos e também os beneficia diretamente ao conceder iniciações, colocando-os no caminho da liberação. Assim sendo, Guru Rinpoche, que tem todas essas qualidades, é o objeto de nossa oração.

No nível externo, ele é as Três Joias: Buda, Darma e Sanga. No nível interno, ele é as Três Raízes: Lama, Deidade Escolhida (Yidam) e Dakini. No nível secreto, ele é os Três Kaias: Darmakaia, Sambogakaia e Nirmanakaia.

Guru Rinpoche é a manifestação de todos os seres iluminados, a fonte de todos os ensinamentos que nos proporcionam benefício temporário e definitivo. Ele é o detentor da coroa de todas as sangas e o detentor da coroa de todos os seres iluminados.

DUD DUL DRAG PO é um nome secreto de Guru Rinpoche cujo significado é: aquele que, sem medo, remove todos os obstáculos causados por obstrutores. Ele remove os obstáculos, que são os quatro maras. Quando tais obstáculos são removidos, os quatro tipos de atividades podem ser realizadas: a atividade pacífica, a de incrementação, a do poder e a irada. Por meio dessas atividades podemos beneficiar a todos os seres.
O objeto da nossa oração é puro desde o princípio sem princípio. Ao removermos os obstáculos temporários, as duas purezas podem ser consumadas.

Pelo poder da grande sabedoria, os dois tipos de obscurecimentos (venenos mentais e obscurecimentos intelectuais) podem ser removidos. Pela consumação do estado desperto além dos extremos, os obscurecimentos são liberados diretamente no espaço básico. Por isso, Guru Rinpoche é chamado o detentor de toda manifestação.

Quarta linha

SOL UA DEB SO DJIN DJI LAB TU SOL

Quando recitamos esta oração, num sentido externo estamos chamando o nome de Guru Rinpoche, mas o que verdadeiramente precisamos entender é que Guru Rinpoche é a fonte de todas as qualidades puras e, por isso, ele tem o poder de remover todos os obstáculos.

Pensamos em Guru Rinpoche com respeito e rezamos com fé intensa. E por que rezamos? O que desejamos quando rezamos?

Com a oração externa, nos aproximamos do objeto da nossa oração. Em tibetano, essa fase é chamada nyempa (aproximação), cujo significado é “movidos pela fé, nos aproximamos”.

Outra fase é chamada drugpa, que significa realização. Num sentido interno, reconhecemos que Guru Rinpoche é inseparável das Três Jóias, das Três Raízes e dos Três Kaias. Seu corpo, fala e mente é a mandala do corpo, fala e mente de sabedoria. Nosso corpo, fala e mente também têm uma natureza pura desde o princípio sem princípio, que antes não reconhecíamos. Reconhecer essa natureza pura e manter o reconhecimento é o significado da fase de realização (drugpa).

Num sentido secreto, a natureza da nossa mente é inseparável dos Três Kaias:

O Darmakaia é a própria natureza da nossa mente, a vacuidade inseparável de suas qualidades incessantes. O Sambogakaia reúne os cinco aspectos do estado desperto atemporal, que são:

1- A sabedoria darmadatu, que é a natureza da mente além dos extremos.
2- A sabedoria discriminativa.
3- A sabedoria clara como espelho.
4- A sabedoria da equanimidade.
5- A sabedoria que tudo realiza.

Há também o Nirmanakaia e o Sobavakakaia. Os quatro kaias e as cinco sabedorias são a nossa própria mente, inseparável do Lama. Precisamos adquirir confiança em relação a esse reconhecimento. A natureza de quem reza e a do objeto da oração são inseparáveis. Descansar sem esforço nessa natureza é a atividade iluminada.

DJIN DJI LAB TU SOL – aqui invocamos ou pedimos as bênçãos. Como as bênçãos nos são concedidas?

Ao receber a bênção do corpo de sabedoria, nosso corpo é transformado em um corpo de luz, o corpo vajra, que tem as sete qualidades vajra: ele é invulnerável, indestrutível, autêntico, incorruptível, estável, desobstruído e invencível. Ao receber a bênção da fala iluminada, consumamos a fala iluminada, ou fala vajra, a inseparabilidade de som e vacuidade. Ao receber a bênção da mente iluminada, consumamos a mente iluminada, a mente vajra. Portanto, solicitamos bênçãos dessas três maneiras e pedimos que possamos revelar o corpo, a fala e a mente iluminados.

Quinta linha

TCHI NANG SANG UE BAR TCHED JI UA DANG

Com relação aos obstáculos que podem surgir em nossa prática e impedir que alcancemos a iluminação, há os obstáculos externos, que são os medos. Todos os medos são manifestações externas de nossos venenos mentais e podem ser divididos em dezesseis categorias. Por exemplo, o orgulho se reflete externamente como o medo de terremoto, a raiva se reflete externamente como o medo de fogo e assim por diante.

1- medo da terra, medo de terremoto.
2- medo da água.
3- medo do fogo.
4- medo de vento, furacão.
5- medo da chuva de meteoros.
6- medo de armas em geral.
7- medo de cadeia, medo de autoridades.
8- medo de inimigos, ladrões e assaltantes.
9- medo de demônios canibais.
10- medo de elefantes furiosos e alucinados.
11- medo de leões.
12- medo de cobras venenosas.
13- medo de doenças contagiosas.
14- medo da morte inesperada.
15- medo da pobreza.
16- medo de não realizar as aspirações.

Os obstáculos internos são os quatro maras:
1- o mara dos agregados do corpo.
2- o mara dos venenos mentais.
3- o mara do falso contentamento. Acreditar na felicidade temporária, sem reconhecer que tudo muda o tempo todo. É como lamber o mel que está sobre a lâmina de uma faca.
4- o mara da morte.

Os obstáculos secretos são os venenos mentais: ignorância, desejo, raiva, inveja/ciúme, orgulho. Todos esses obstáculos criam empecilhos à iluminação. Como removemos os obstáculos externos? Com o reconhecimento de que toda aparência é o corpo puro, todo som é a fala pura e que a natureza da mente é sabedoria pura. Toda forma, tudo o que vemos, toda aparência é reconhecida como a forma pura da deidade. Todo som que ouvimos é o mantra da deidade, o som puro. Reconhecemos o que surge na nossa mente como inseparável do estado desperto atemporal, Darmakaia.

Quando alcançamos a realização da natureza pura de todas as coisas, os obstáculos externos se dissolvem. Se reconhecermos a natureza absoluta, os pensamentos duais se dissolvem, eliminamos o apego ao eu e, assim, conquistamos os maras, purificamos os cinco venenos mentais e consumamos as cinco sabedorias. Com isso, qualquer obstáculo que se manifestar será transformado em algo bom ou melhor.

Os obstáculos externos, internos e secretos são removidos pelo poder das bênçãos do corpo, fala e mente iluminados de Guru Rinpoche.

Sexta linha

SAM PA LUN DJI DRUB PAR DJIN DJI LOB

SAMPA significa que tudo que desejarmos no nível temporário possa ser realizado e que, deste momento até que alcancemos a iluminação, todas as condições favoráveis desejadas possam se manifestar.

Quais são essas condições favoráveis? Uma existência nos três reinos superiores: no reino dos deuses, dos semideuses ou dos seres humanos. Para isso precisamos desejar possuir sete qualidades que são:

1- Ter uma vida longa. Precisamos do nosso corpo humano. Este corpo é um bom veículo, e, como em um barco, a mente é o capitão. A mente determina a direção e o corpo a serve. Então, precisamos desejar ter uma vida longa.
2- Ter saúde. A mente pode ter pensamentos positivos, mas, se o corpo estiver doente, não conseguiremos realizar o que pensamos; por isso, desejamos ter um corpo saudável, bom e forte.
3- Ter boa fortuna, boa sorte, prosperidade.
4- Ter uma boa família, porque, se nascemos em uma família de índole ruim, podemos ser influenciados negativamente.
5- Ter boas condições financeiras, não ser pobre nem passar por dificuldades.
6- Ter qualidades como a inteligência, porque, sem inteligência, também se está impossibilitado de realizar coisas.
7- Ser bonito.

Essas são as sete qualidades dos renascimentos elevados.

As sete riquezas são:

1- Fé. Seja qual for a sua tradição, se você não tiver fé, não haverá conexão. Se você não mantiver a conexão, sua prática não dará resultado.
2- Disciplina moral. Abandonar ações negativas e agir de forma virtuosa.
3- Diligência, perseverança com alegria.
4- Ser consciencioso. Ter vergonha de fazer coisas erradas por saber que os outros vão perceber.
5- Conhecimento (inteligência). Você pode querer fazer algo positivo, mas se não tiver conhecimento, não conseguirá. É importante ter a qualidade ou a boa fortuna da escuta para poder adquirir conhecimento.
6- Generosidade. Sendo avarento, não sabendo dividir nada com ninguém, mesmo que você saiba ouvir, seja saudável, tenha capacidades e qualidades, não produzirá benefício.
7- Ter o conhecimento profundo, ou conhecimento transcendental, o melhor conhecimento; em tibetano: sherab.

No caminho espiritual não basta apenas ser diligente. Pode ser que algo o incomode durante a prática e você sinta vontade de parar, mas se force a continuar praticando – essa situação não é a ideal. No entanto, se soubermos que a prática traz benefícios para nós e para os outros, praticaremos com entusiasmo. Teremos essa qualidade da perseverança com alegria. Se não tivermos perseverança com alegria, sempre que surgirem dúvidas nossa prática enfraquecerá.

Pedimos as bênçãos para que possamos usufruir de todas as condições favoráveis no caminho que leva ao objetivo último: alcançar a realização extraordinária. Todos os seres, sejam seres humanos, animais, ou outro tipo de ser, têm mente. A essência da mente é a natureza búdica, que é pura. Não importa o tamanho do ser, se é grande ou pequeno, pois a sua essência é pura.

Se todos nós temos uma essência pura, então por que surge a experiência do samsara? Porque ainda não reconhecemos nossa essência pura. Ela está encoberta por obscurecimentos temporários, como os venenos da mente e os obscurecimentos intelectuais. Temos o hábito de não entender, de não reconhecer a essência pura: é isso que gera a experiência do samsara. O caminho para transformar a experiência do samsara e chegar à consumação da natureza absoluta é o acúmulo de mérito e de sabedoria.

A natureza da mente de cada ser é inseparável dos quatro kaias e das cinco sabedorias (ou cinco aspectos do estado desperto) e, no momento, está encoberta por obscurecimentos temporários. Com a prática dos estágios do desenvolvimento e da consumação, podemos remover esses obscurecimentos temporários e alcançar a realização extraordinária: o reconhecimento da verdadeira natureza da mente. Pedimos as bênçãos para alcançar essa realização extraordinária, a consumação do reconhecimento sem esforço da natureza absoluta.

Fonte: Chagdud Gonpa Brasil.